O mundo tem destas coisas.. de vez em quando somos confrontados com a sua faceta mais assustadora.
Tenho para mim nas décadas que já vivi que todos mentem. Uns mais, outros menos, uns para se protegerem dos outros, outros para prejudicar os outros. Mentiras pequenas e relativamente inócuas ou mentiras mais graves.
E o que acaba por acontecer quando se conta uma mentira é muito simples: a verdade do que aconteceu ou do que é pode nunca ou só muito tarde vir ao de cima.
Temos de estar atentos a todos, miúdos e graúdos. Mas é certo que nem todos são iguais, e no meio de tudo há que dizer que os graúdos têm a responsabilidade moral de formar a geração que lhe sucede de forma a que eles possam pensar pela sua própria cabeça e serem pessoas mentalmente saudáveis.
Mais do que deixar como legado uma herança, que acaba muitas vezes por despertar os piores instintos nas pessoas, o melhor que se pode dar aos filhos é educação. E que eles com a educação recebida construam o seu próprio património e que sejam felizes.
Quando constato que são os próprios pais que embarcam numa sociedade materialista e irracional, e que mentem deliberadamente aos filhos, que acreditam!, numa figura bonacheirona que nunca, em circunstância alguma, cabe pela chaminé de casa nenhuma (além de ser um disparate perigoso), então estamos conversados acerca da inteligência humana.
O problema da fantasia aqui é que apenas o é para metade dos envolvidos. Os pais sabem que o Pai Natal não existe, mas conjuram um plano para que os filhos acreditem na personagem durante os primeiros anos. E conseguem fazê-lo em muitos casos.
Qual é o problema de os pais dizerem ao filhos que aquelas prendas são compradas com o dinheiro que os pais ganharam a trabalhar ? Os filhos vão gostar menos das prendas, vão divertir-se menos por causa disso ? Não é até muito melhor que os filhos comecem logo a estabelecer a correspondência entre o que recebem e a origem das prendas, para melhor perceberem que aquilo custa a ganhar e não cai do céu/da chaminé em segredo pela calada da noite ?
Tenham juízo! Passados uns anos os filhos crescem e começam a perceber que afinal é tudo mentira - e assim se começa no caminho da mentira - porque até se pode mentir se for por uma coisa bonita como o Pai Natal, não é ? Em vez de explicar como as coisas funcionam e que a verdade também pode ser uma coisa muito bonita.
É a mesma coisa que dizer que podemos deixar entrar as pulgas em casa se elas vierem perfumadas. O facto de elas morderem na mesma passa para segundo plano.
Vão-me dizer que isto não é assim tão grave. É um exemplo, meus caros. De muitos. E de como as crianças acreditam em muitos disparates que se lhe contam, porque têm parca experiência e são dependentes. E os adultos também acreditam noutros disparates, mais elaborados, normalmente daqueles que ficam uns pontos acima do QI médio da população semi-analfabeta deste país que se limita a insultar no café real ou virtual sem saber nada do que se passa e - pior, sem tentar minimamente, proactivamente, saber.
Quando eu vou ao cinema eu sei que aquilo é ficção. Toda a gente sabe que ali estão actores, e uma vasta equipa que realizou e produziu o filme. E quando vertemos uma lágrima numa cena mais emotiva ou ficamos agitados num momento de grande acção, nesse momento nós estamos como que dentro do acontecimento - e nesse momento nós quase que acreditamos que aquilo existe mesmo. Esse é o bom cinema, que nos transporta de forma credível lá para dentro.
Mas depois saímos da sala e ninguém quis enganar ninguém. Aquilo é ficção, entretenimento do bom, que nos fez pensar, nos pôs alegres ou emocionados e até nos pode fazer sonhar e inspirar para fazer algo de grande. Essa é a mensagem, e o filme vale por isso. De que vale o Pai Natal ?
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4 de setembro de 2010
21 de junho de 2010
Duas respostas para questões sem resposta
Rute e Guida , respondo-vos em forma de post aos vossos comentários ao último texto.
Rute, quando dizes "Não sei se concordo contigo quando disses que as pessoas precisam de acreditar em Deus, como se essa necessidade fosse universal! Penso que não, há pessoas que não acreditam, não querem, nem precisam de acreditar.",
atenta que eu disse, e cito: "Talvez um dia também consigamos demonstrar cientificamente a teoria social do porquê muitas pessoas sentirem a necessidade de acreditar em Deus (...)" e no parágrafo seguinte: "(...) mesmo para alguns desses continua a fazer sentido a crença numa entidade superior (...)"
Estamos portanto, de acordo! Além do que a primeira frase minha que eu citei, incorpora em si uma questão, que é a de saber até que ponto a teoria social é válida. Será que temos essa necessidade (os que a têm, claro!) ou ela é-nos incutida e passada de geração em geração ?
Já porém quando dizes que "As divindades variam, alteram-se, mudam de nome consoante as épocas e as culturas. Mas isso é irrelevante, o Deus é sempre o mesmo, independentemente do nome que lhe dão.",
já não estamos; esta discussão dava pano para mangas, mas aqui não é o lugar certo. Todavia penso que concordarás comigo que a percepção que se possa ter do que dizes varia muito de época para época. Na mitologia grega, entre Deuses e o rei dos Deuses e os Titãs, não sei bem em que medida é que haverá nessa época a percepção de um único Deus.
Quando dizes "Não acredito que o Mundo e o Ser Humano tenham surgido por acaso." demonstras que todos (e aqui é mesmo todos, ou quase todos os que têm curiosidade) temos a necessidade de procurar respostas, porque ficar quietos num universo em movimento é essencialmente morrer.
Agora isso é uma coisa, outra é acreditar que exista um motivo, uma razão. E isso são conceitos muito humanos, que nós não sabemos se mais alguém poderia ter inventado. Ninguém sabe se há motivo ou deixa de haver. E não penso, pessoalmente, que haja razão ou motivos para sermos infelizes, se um dia descobrirmos que "acontecemos", no passado e no presente, por acaso.
Todos nós temos um certo "horror ao vácuo", e a tua demonstração de que por vezes sentes Deus, é sinónimo disso. Mas há formas e formas de preencher o vazio. Além disso, tudo o que acontece na vida é sujeito à nossa interpretação, e tu podes interpretar os diversos acontecimentos como bem entenderes, ou melhor dito, como puderes. Para ti, uma sequência de acontecimentos felizes - "com a força das pessoas, quando supostamente já deveriam ter sucumbido, na alegria no meio de grandes dificuldades, nos "Anjos da Guarda" que nos vão aparecendo durante a vida" - que te faz "sentir" e de certa forma acreditar numa entidades dessas, contradiz o que disseste antes sobre o não acreditares que Deus possa interferir na nossa vida:
"(...) Purgatório na "mão" de Deus na vida de cada um, no destino traçado por Ele. A ser assim, teríamos um Pai extremamente injusto e cheio de preferências por alguns dos seus filhos. A ser assim, seria um Deus cruel, desumano e sádico."
É que, como dizia, a sequência feliz de acontecimentos que o é para ti, já para quem está ali ao teu lado ou a quilómetros de distância, pode ser uma tragédia, desencadeada pelos mesmos factores que a ti te fazem feliz. Uma pessoa amiga que é salva de um Tsunami pode ser encarado como uma ajuda de Deus, um ""Anjos da Guarda" que nos vão aparecendo durante a vida", como tu dizes, mas que, a ser verdade, revelaria por parte de Deus, uma estranha forma de intervenção de cortesia, em pequenas quantidades, como quem pode mais, mas não quer, e que, no essencial, ao revelar actuar aqui, mas não ali, deixando muitas pessoas morrer nesse mesmo Tsunami, uma aparente injustiça. E digo "aparente" porque até pode ter bons motivos (se os houver), mas serão muitas vezes insondáveis. E depois nós podemos interpretar como quisermos, como é costume.
Mas, acima de tudo, é a noção de que o que nos acontece é de alguma forma apadrinhado por uma entidade superior, como se as coisas acontecessem, de certa forma a 'pensar' em nós. Há, no meu entender uma certa dose de egoísmo nesta forma de pensar.
Dir-me-às que sou arrogante por falar assim, e estás no teu pleno direito, mas eu penso que, no caminho da busca de algo que nos permita preencher o vazio que quase todos sentiremos, uma boa dose de humildade, de que poderemos inclusive ter de nos conformarmos por, um dia, eventualmente, quando a vida humana acabar, chegarmos a esse fim sem as respostas que procuramos. É que parecendo que não, a ignorância das respostas que eu penso levar à necessidade humana de acreditar que há algo mais que explica tudo isto, também comporta uma dose, ainda que admita que inconsciente, de arrogância, por querer pretender ter chegado à resposta, aparentemente final (para quem assim acredita), sem para isso ter trabalhado assim tanto. Todas as respostas científicas que temos hoje são, por outro lado, fruto de muito trabalho, e são, feliz ou infelizmente, incompletas.
A ignorância é daquelas coisas que é ilimitada, e o conhecimento anda sempre um passo atrás, no seu encalço.
Guida:
Venho do teu texto, pois! Já me apetecia escrever algo sobre esta temática, aliás, até já tinha escrito, mas nunca publicado. É muito difícil escrever sobre este tema, porque há sempre muitas emoções a pairar tanto de quem escreve e de quem lê e é difícil encontrar um registo, uma abordagem que me satisfaça. O teu texto, aliado ao que já queria ter dito há muito tempo sobre o episódio do Felipe Massa, que é apenas mais um de muitos, mas que tem mais projecção mediática, serviu-me de inspiração para escrever esta reflexão.
O Felipe Massa acredita que conhece Deus, de certa forma, ainda que incompleta, porque foi isso que lhe ensinaram; tivesse nascido noutra região do mundo e conheceria o Deus ou Deuses de forma diferente, com "vozes", ditos, ensinamentos e costumes diferentes. Em boa medida é assim. Claro que há excepções, mas é difícil desprender-mo-nos do sistema no qual nos habituámos e nos habituaram a viver. É como te dizerem para desaprenderes a falar português. Mesmo que tu saibas falar outra língua, é algo que não faz sentido para ti. Tu sabes, tu comunicas com os outros nessa língua, formas laços, crias ligações afectivas duradouras, hábitos e ritmos sociais que podes até não questionar e que te fazem falta no preencher do vazio, do vácuo que referi acima, mas também porque como matiz é difícil substituí-la.
Quanto ao destino que tu acreditas que temos marcado, eu não sei. Essencialmente porque, na génese do problema como eu o encaro, não sei sequer se há motivo para existirmos ou se pura e simplesmente existimos. E devolvo-te uma questão quanto ao destino: tu acreditas porque pensas ou pensas porque acreditas ?
Concordo em absoluto quando dizes "E essa vontade de agradecimento é um sentimento de proximidade e de amor aos outros." É é por isso que eu critico o Felipe Massa e todos os outros que deviam agradecer a todos os que por cá andam e andaram e tiveram influência no facto de ele ainda cá estar, de boa saúde, depois do acidente. Fazer uma lista dá trabalho, pois dá, é muito mais fácil fazer um "wrap it all up and thank God" Temos sempre a quem agradecer. É só procurarmos, nem que seja de um modo um pouco mais genérico se tivermos falta de tempo. Agora agradecer a Deus é, no meu entender, sintoma de uma estranha e injustificável falta de tempo.
"Tu não te sentes incompleto?"
- Não. E sim. Mas não é por isso que me sinto ou deixo de sentir feliz. Se me sinto vazio por não saber de onde venho, para onde vou, como existo e se há um porquê de existir ? Não propriamente. Sinto curiosidade, mas também sei que provavelmente nunca vou saber as respostas. Já saber colocar a pergunta é magnífico. Depois do momento aterrador inicial e de momentos aqui e ali em que me recoloco estas perguntas e filosofo, a vida continua e a busca de respostas em outros domínios, porque há tanta coisa para descobrir e para saber, não me deixam tempo para ficar a contemplar o vazio preenchido por algo que eu não consigo demonstrar. É óptimo sabermos colocar a possibilidade em cima da mesa como auxiliar de raciocínio e contraposição, mas acreditar, porque sim, sem qualquer prova ?
Não sei se, como dizes, somos de facto completos embora pensemos o contrário porque ainda não chegámos ao profundo de nós mesmos para sentir a existência e assim apurarmos a mecânica, o fluir e o sentido da nossa existência. Podemos até ser incompletos, como dizia há pouco. Porque esse facto por si só não impede nada, antes pelo contrário, impele-nos para a frente, para procurarmos respostas. Mesmo que nunca as encontremos. E assim ficaremos de facto para sempre incompletos. E até cientes disso, sem que contudo isso afecte seja o que for. Não temos necessidade de ser completos. Temos sim, de procurar cada vez mais respostas.
"Existir é uma real trabalheira e é muito mais fácil atribuir tudo ao Deus conhecido do que procurar respostas... Sempre foi assim, por mais polémica que seja esta ideia!"
Remate quase perfeito. Só lhe acrescento ao Deus conhecido, o teu Deus desconhecido. No fundo, 'é' tudo o mesmo.
Rute, quando dizes "Não sei se concordo contigo quando disses que as pessoas precisam de acreditar em Deus, como se essa necessidade fosse universal! Penso que não, há pessoas que não acreditam, não querem, nem precisam de acreditar.",
atenta que eu disse, e cito: "Talvez um dia também consigamos demonstrar cientificamente a teoria social do porquê muitas pessoas sentirem a necessidade de acreditar em Deus (...)" e no parágrafo seguinte: "(...) mesmo para alguns desses continua a fazer sentido a crença numa entidade superior (...)"
Estamos portanto, de acordo! Além do que a primeira frase minha que eu citei, incorpora em si uma questão, que é a de saber até que ponto a teoria social é válida. Será que temos essa necessidade (os que a têm, claro!) ou ela é-nos incutida e passada de geração em geração ?
Já porém quando dizes que "As divindades variam, alteram-se, mudam de nome consoante as épocas e as culturas. Mas isso é irrelevante, o Deus é sempre o mesmo, independentemente do nome que lhe dão.",
já não estamos; esta discussão dava pano para mangas, mas aqui não é o lugar certo. Todavia penso que concordarás comigo que a percepção que se possa ter do que dizes varia muito de época para época. Na mitologia grega, entre Deuses e o rei dos Deuses e os Titãs, não sei bem em que medida é que haverá nessa época a percepção de um único Deus.
Quando dizes "Não acredito que o Mundo e o Ser Humano tenham surgido por acaso." demonstras que todos (e aqui é mesmo todos, ou quase todos os que têm curiosidade) temos a necessidade de procurar respostas, porque ficar quietos num universo em movimento é essencialmente morrer.
Agora isso é uma coisa, outra é acreditar que exista um motivo, uma razão. E isso são conceitos muito humanos, que nós não sabemos se mais alguém poderia ter inventado. Ninguém sabe se há motivo ou deixa de haver. E não penso, pessoalmente, que haja razão ou motivos para sermos infelizes, se um dia descobrirmos que "acontecemos", no passado e no presente, por acaso.
Todos nós temos um certo "horror ao vácuo", e a tua demonstração de que por vezes sentes Deus, é sinónimo disso. Mas há formas e formas de preencher o vazio. Além disso, tudo o que acontece na vida é sujeito à nossa interpretação, e tu podes interpretar os diversos acontecimentos como bem entenderes, ou melhor dito, como puderes. Para ti, uma sequência de acontecimentos felizes - "com a força das pessoas, quando supostamente já deveriam ter sucumbido, na alegria no meio de grandes dificuldades, nos "Anjos da Guarda" que nos vão aparecendo durante a vida" - que te faz "sentir" e de certa forma acreditar numa entidades dessas, contradiz o que disseste antes sobre o não acreditares que Deus possa interferir na nossa vida:
"(...) Purgatório na "mão" de Deus na vida de cada um, no destino traçado por Ele. A ser assim, teríamos um Pai extremamente injusto e cheio de preferências por alguns dos seus filhos. A ser assim, seria um Deus cruel, desumano e sádico."
É que, como dizia, a sequência feliz de acontecimentos que o é para ti, já para quem está ali ao teu lado ou a quilómetros de distância, pode ser uma tragédia, desencadeada pelos mesmos factores que a ti te fazem feliz. Uma pessoa amiga que é salva de um Tsunami pode ser encarado como uma ajuda de Deus, um ""Anjos da Guarda" que nos vão aparecendo durante a vida", como tu dizes, mas que, a ser verdade, revelaria por parte de Deus, uma estranha forma de intervenção de cortesia, em pequenas quantidades, como quem pode mais, mas não quer, e que, no essencial, ao revelar actuar aqui, mas não ali, deixando muitas pessoas morrer nesse mesmo Tsunami, uma aparente injustiça. E digo "aparente" porque até pode ter bons motivos (se os houver), mas serão muitas vezes insondáveis. E depois nós podemos interpretar como quisermos, como é costume.
Mas, acima de tudo, é a noção de que o que nos acontece é de alguma forma apadrinhado por uma entidade superior, como se as coisas acontecessem, de certa forma a 'pensar' em nós. Há, no meu entender uma certa dose de egoísmo nesta forma de pensar.
Dir-me-às que sou arrogante por falar assim, e estás no teu pleno direito, mas eu penso que, no caminho da busca de algo que nos permita preencher o vazio que quase todos sentiremos, uma boa dose de humildade, de que poderemos inclusive ter de nos conformarmos por, um dia, eventualmente, quando a vida humana acabar, chegarmos a esse fim sem as respostas que procuramos. É que parecendo que não, a ignorância das respostas que eu penso levar à necessidade humana de acreditar que há algo mais que explica tudo isto, também comporta uma dose, ainda que admita que inconsciente, de arrogância, por querer pretender ter chegado à resposta, aparentemente final (para quem assim acredita), sem para isso ter trabalhado assim tanto. Todas as respostas científicas que temos hoje são, por outro lado, fruto de muito trabalho, e são, feliz ou infelizmente, incompletas.
A ignorância é daquelas coisas que é ilimitada, e o conhecimento anda sempre um passo atrás, no seu encalço.
Guida:
Venho do teu texto, pois! Já me apetecia escrever algo sobre esta temática, aliás, até já tinha escrito, mas nunca publicado. É muito difícil escrever sobre este tema, porque há sempre muitas emoções a pairar tanto de quem escreve e de quem lê e é difícil encontrar um registo, uma abordagem que me satisfaça. O teu texto, aliado ao que já queria ter dito há muito tempo sobre o episódio do Felipe Massa, que é apenas mais um de muitos, mas que tem mais projecção mediática, serviu-me de inspiração para escrever esta reflexão.
O Felipe Massa acredita que conhece Deus, de certa forma, ainda que incompleta, porque foi isso que lhe ensinaram; tivesse nascido noutra região do mundo e conheceria o Deus ou Deuses de forma diferente, com "vozes", ditos, ensinamentos e costumes diferentes. Em boa medida é assim. Claro que há excepções, mas é difícil desprender-mo-nos do sistema no qual nos habituámos e nos habituaram a viver. É como te dizerem para desaprenderes a falar português. Mesmo que tu saibas falar outra língua, é algo que não faz sentido para ti. Tu sabes, tu comunicas com os outros nessa língua, formas laços, crias ligações afectivas duradouras, hábitos e ritmos sociais que podes até não questionar e que te fazem falta no preencher do vazio, do vácuo que referi acima, mas também porque como matiz é difícil substituí-la.
Quanto ao destino que tu acreditas que temos marcado, eu não sei. Essencialmente porque, na génese do problema como eu o encaro, não sei sequer se há motivo para existirmos ou se pura e simplesmente existimos. E devolvo-te uma questão quanto ao destino: tu acreditas porque pensas ou pensas porque acreditas ?
Concordo em absoluto quando dizes "E essa vontade de agradecimento é um sentimento de proximidade e de amor aos outros." É é por isso que eu critico o Felipe Massa e todos os outros que deviam agradecer a todos os que por cá andam e andaram e tiveram influência no facto de ele ainda cá estar, de boa saúde, depois do acidente. Fazer uma lista dá trabalho, pois dá, é muito mais fácil fazer um "wrap it all up and thank God" Temos sempre a quem agradecer. É só procurarmos, nem que seja de um modo um pouco mais genérico se tivermos falta de tempo. Agora agradecer a Deus é, no meu entender, sintoma de uma estranha e injustificável falta de tempo.
"Tu não te sentes incompleto?"
- Não. E sim. Mas não é por isso que me sinto ou deixo de sentir feliz. Se me sinto vazio por não saber de onde venho, para onde vou, como existo e se há um porquê de existir ? Não propriamente. Sinto curiosidade, mas também sei que provavelmente nunca vou saber as respostas. Já saber colocar a pergunta é magnífico. Depois do momento aterrador inicial e de momentos aqui e ali em que me recoloco estas perguntas e filosofo, a vida continua e a busca de respostas em outros domínios, porque há tanta coisa para descobrir e para saber, não me deixam tempo para ficar a contemplar o vazio preenchido por algo que eu não consigo demonstrar. É óptimo sabermos colocar a possibilidade em cima da mesa como auxiliar de raciocínio e contraposição, mas acreditar, porque sim, sem qualquer prova ?
Não sei se, como dizes, somos de facto completos embora pensemos o contrário porque ainda não chegámos ao profundo de nós mesmos para sentir a existência e assim apurarmos a mecânica, o fluir e o sentido da nossa existência. Podemos até ser incompletos, como dizia há pouco. Porque esse facto por si só não impede nada, antes pelo contrário, impele-nos para a frente, para procurarmos respostas. Mesmo que nunca as encontremos. E assim ficaremos de facto para sempre incompletos. E até cientes disso, sem que contudo isso afecte seja o que for. Não temos necessidade de ser completos. Temos sim, de procurar cada vez mais respostas.
"Existir é uma real trabalheira e é muito mais fácil atribuir tudo ao Deus conhecido do que procurar respostas... Sempre foi assim, por mais polémica que seja esta ideia!"
Remate quase perfeito. Só lhe acrescento ao Deus conhecido, o teu Deus desconhecido. No fundo, 'é' tudo o mesmo.
12 de junho de 2010
"A Um Deus Desconhecido" ?
A todos:
(Se não lerem mais nenhum post deste blogue, leiam pelo menos este)
Quando o Felipe Massa, piloto de Fórmula 1, teve aquele infortúnio grave que quase o matava, eu evidentemente solidarizei-me com os familiares e com todos os adeptos e demais pessoas que o conheciam e lhe queriam bem, nos desejos de melhoras rápidas e completas, e de que ele pudesse regressar em breve à competição.
Foi um acidente lamentável, mas acontece. A técnica é apurada, mas pode haver sempre um descuido humano ou uma falha no material de que resultam às vezes coisas insignificantes, ou, como foi o caso, muito graves.
Mas a Fórmula 1, como desporto-rei das quatro rodas, tem sido o expoente máximo das inovações científicas e tecnológicas: se não fosse o capacete que muitas pessoas ajudaram a desenvolver ao longo dos anos, incluindo o ex-colega de equipa Michael Schumacher, o Felipe Massa hoje poderia não estar connosco.
Se muitos antes dele, ao longo das décadas, não tivessem infelizmente ficado pelo caminho - porque isto dos avanços, seja em que área for, tem quase sempre vítimas e mártires - hoje o Felipe Massa poderia estar justamente a ser ele próprio uma vítima e um mártir, para sempre lembrado na história como um dos que ajudou a tornar o desporto mais seguro.
Se não fossem todos os que conduziram carros sem as protecções que os de hoje têm e se eles não se tivessem espetado na curva seguinte e infelizmente provado que o carro precisava de mais segurança; se as curvas não tivessem sido desenhadas e alteradas ao longo dos anos para que se tornassem cada vez mais seguras, recorrendo à experiência, a cálculos matemáticos de velocidade e resistência dos materiais; se não se tivessem lembrado de colocar pneus nas barreiras para amortecer o choque (e se os pneus não tivessem sido inventados e aperfeiçoados!), de que o Felipe beneficiou; se não se tivesse inventado um meio de transporte rápido, que pode aterrar e descolar na vertical - helicóptero, que permite o socorro e a deslocação em tempo útil dos feridos até ao hospital; se os médicos de hoje não fossem o resultado do saber acumulado de estudiosos e médicos anteriores - que também cometeram erros (há sempre mártires, como dizia) - até se chegar ao estado da técnica que hoje há; se não houvesse nada disto, mesmo com toda a boa vontade do mundo, o Felipe Massa poderia muito bem não estar aqui para agradecer.
E foi justamente agradecer a primeira coisa que Felipe Massa fez quando voltou à ribalta. Agradecer a Deus.
Deus que não fez nada para impedir que uma mola saltasse da traseira do carro do seu compatriota Rubens Barichello e o atingisse a alta velocidade, aumentando exponencialmente o seu relativamente diminuto peso de 800 gramas. Só depois é que Massa agradeceu aos médicos. Os médicos que só o puderam salvar porque todos os outros factores que eu referi acima estavam presentes, porque o capacete ainda o protegeu, porque o carro é mais seguro do que há uns anos, porque as barreiras de protecção existiam e absorveram o impacto do carro, porque havia um helicóptero. Porque muitos trabalharam e outros ficaram pelo caminho. Tudo fruto de trabalho árduo de pessoas de carne e osso, ao longo das décadas, para que pudéssemos chegar ao ponto de desenvolvimento e conhecimento que temos hoje, e de que ele, Felipe Massa, pudesse, entre outros, beneficiar.
Deus que, se é omnipresente como dizem, presenciou o acidente e nada fez para que aquilo não acontecesse. Ou, numa hipótese que muitos não considerarão possível, ainda que seja concebível, Deus quis que acontecesse daquela forma.
Seja como for, ao não impedir, compactuou. É como estarmos numa peça de teatro em que somos todos marionetas ao dispor do senhor que puxa os cordelinhos. Podemos ter a liberdade de pensar, mas os nossos movimentos e o nosso destino ficam ao sabor alheio. Que significado tem uma pessoa agradecer a um Deus que não se sabe que papel teve no seu acidente, e cujo papel, por igual razão, também não se sabe ter tido na sua recuperação, excluindo o de, pelo menos, não ter conspirado contra?
Será um agradecimento submisso, de alguém que se submeteu a Deus e se declara à sua mercê, como diz o islamismo ? Alguém que não critica ou pede explicações quando acontece o infortúnio, mas que agradece quando acontecem coisas boas ?
É uma pessoa ser colocada no mundo com certas características e depois aprender, à custa de sofrimento, a melhorá-las e agradecer a Deus essa possibilidade - quando têm essa possibilidade e não morrem no processo, num qualquer acidente estúpido ?
Enquanto isso, outras pessoas são incomparavelmente mais sortudas, felizes e vivem uma vida muito mais preenchida e longa. É por isso que se acredita na reencarnação ? Porque, mais cedo ou mais tarde, também nos vai calhar na rifa cósmica nascer no sítio certo, à hora certa, nas condições e ambiente social e genético certos, como pessoas, outros animais, plantas ou árvores ?
Ninguém sabe a resposta. Muita gente acredita que sabe a resposta, mas ninguém consegue demonstrar que está certo. Ninguém sabe o que o futuro reserva. Ninguém sabe explicar o funcionamento "disto".
"Isto" é sem dúvida muito interessante, sem dúvida. Reconfortante, recompensador quando nos esforçamos e a coisa corre bem; que nos torna humildes quando não corre bem e temos mais chances e conseguimos com determinação, sabedoria e humildade, vencer. Do superlativo positivo ao superlativo negativo existe de tudo, em quantidades e em espaços variáveis.
Ninguém sabe porque é que existimos, e como é que existimos. Ninguém sabe o que é o contrário de "haver".
Pode ser que um dia lá cheguemos. Cada dia sabemos mais. De coisas que conseguimos, de facto, demonstrar.
Talvez um dia também consigamos demonstrar científicamente a teoria social do porquê muitas pessoas sentirem a necessidade de acreditar em Deus, mesmo aquelas pessoas que sabem que antes de Jesus Cristo, o seu Pai e o Espírito Santo, houve muitos outros Deuses, inclusive estátuas da Deusa egípcia Ísis com o menino Órus ao colo, que foram depois utilizadas, tal qual, como mostrando a Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo.
Mesmo para esses, que não ignoram a história e o conhecimento acumulado da humanidade, que sabem que todos os Deuses são relativos, porque conhecem os que são venerados agora e os que foram venerados antes, mesmo para alguns desses continua a fazer sentido a crença numa entidade superior, desligada das religiões - tão terrenas, efémeras e mutáveis, por muito impossível que lhes seja descrever o como e o porquê.
Ora aí está uma pergunta interessante: porque é algumas pessoas têm a necessidade de acreditar ? É genético ? É social ?
A mim porém nunca me convenceu a explicação que nunca foi explicada. Não é só pelo facto de nunca ter sido explicada, demonstrada, e isso dava pano para mangas, mas pelo facto de essa explicação, por muito gloriosa que possa ser, não responder às duas perguntas fundamentais: como, porquê?
Como é que há Deus, porque é que há Deus ?
Como é que existimos, porque é que existimos ?
A simples possibilidade que nós, seres humanos temos de fazer estas perguntas, é simultaneamente fabulosa, maravilhosa e um autêntico orgasmo da existência, mas ao mesmo tempo é aterradora. O facto de, ao contrário das crianças muito novas, termos plena consciência do aqui e do agora e não sabermos responder às questões que entretanto tivemos o brilhantismo de conseguir colocar. É talvez pelo terror que isso provoca que há pessoas que decidem, deixam-se, submeter-se a um Deus desconhecido, que julgam, através de múltiplas histórias que enformam uma civilização, conhecer. Sempre é melhor ter uma explicação que nos sirva de abóbada do que o vazio.
Há mesmo quem decida que Deus não é terceiro, mas que somos todos, tudo o que existe e conhecemos e o que existe e ainda não conhecemos. Mas, ainda assim, as duas perguntas acima colocadas ficam por responder e nenhuma das questões acerca do funcionamento do "matrix" fica esclarecida.
Eu prefiro o vazio. Pode parecer estranho. Mas também é verdade que o vazio já foi mais vazio, e há-de ser cada vez menos vazio. Se um dia iremos conseguir responder às duas perguntas que coloquei acima ? Acho que não. Tenho quase a certeza que não, que nunca vamos descobrir. Nesse dia tudo acabaria. Teríamos chegado, por assim dizer, ao fim do jogo, do puzzle. E no meu modesto entender, este puzzle é infinito.
E com o que temos sempre nos governámos, venha Deus daqui ou dali, apareça e desapareça esta ou aquela religião, esta ou aquela crença, nós existimos ao longo dessa história. Porque nos temos uns aos outros. E eu acredito nas mulheres e nos homens. Mesmo quando não acredito no que eles dizem, é o que temos. É nossa tarefa fazermos com o que temos o melhor que pudermos. Se quisermos ser felizes, claro. É cá uma intuição que eu tenho :D
(Se não lerem mais nenhum post deste blogue, leiam pelo menos este)
Quando o Felipe Massa, piloto de Fórmula 1, teve aquele infortúnio grave que quase o matava, eu evidentemente solidarizei-me com os familiares e com todos os adeptos e demais pessoas que o conheciam e lhe queriam bem, nos desejos de melhoras rápidas e completas, e de que ele pudesse regressar em breve à competição.
Foi um acidente lamentável, mas acontece. A técnica é apurada, mas pode haver sempre um descuido humano ou uma falha no material de que resultam às vezes coisas insignificantes, ou, como foi o caso, muito graves.
Mas a Fórmula 1, como desporto-rei das quatro rodas, tem sido o expoente máximo das inovações científicas e tecnológicas: se não fosse o capacete que muitas pessoas ajudaram a desenvolver ao longo dos anos, incluindo o ex-colega de equipa Michael Schumacher, o Felipe Massa hoje poderia não estar connosco.
Se muitos antes dele, ao longo das décadas, não tivessem infelizmente ficado pelo caminho - porque isto dos avanços, seja em que área for, tem quase sempre vítimas e mártires - hoje o Felipe Massa poderia estar justamente a ser ele próprio uma vítima e um mártir, para sempre lembrado na história como um dos que ajudou a tornar o desporto mais seguro.
Se não fossem todos os que conduziram carros sem as protecções que os de hoje têm e se eles não se tivessem espetado na curva seguinte e infelizmente provado que o carro precisava de mais segurança; se as curvas não tivessem sido desenhadas e alteradas ao longo dos anos para que se tornassem cada vez mais seguras, recorrendo à experiência, a cálculos matemáticos de velocidade e resistência dos materiais; se não se tivessem lembrado de colocar pneus nas barreiras para amortecer o choque (e se os pneus não tivessem sido inventados e aperfeiçoados!), de que o Felipe beneficiou; se não se tivesse inventado um meio de transporte rápido, que pode aterrar e descolar na vertical - helicóptero, que permite o socorro e a deslocação em tempo útil dos feridos até ao hospital; se os médicos de hoje não fossem o resultado do saber acumulado de estudiosos e médicos anteriores - que também cometeram erros (há sempre mártires, como dizia) - até se chegar ao estado da técnica que hoje há; se não houvesse nada disto, mesmo com toda a boa vontade do mundo, o Felipe Massa poderia muito bem não estar aqui para agradecer.
E foi justamente agradecer a primeira coisa que Felipe Massa fez quando voltou à ribalta. Agradecer a Deus.
Deus que não fez nada para impedir que uma mola saltasse da traseira do carro do seu compatriota Rubens Barichello e o atingisse a alta velocidade, aumentando exponencialmente o seu relativamente diminuto peso de 800 gramas. Só depois é que Massa agradeceu aos médicos. Os médicos que só o puderam salvar porque todos os outros factores que eu referi acima estavam presentes, porque o capacete ainda o protegeu, porque o carro é mais seguro do que há uns anos, porque as barreiras de protecção existiam e absorveram o impacto do carro, porque havia um helicóptero. Porque muitos trabalharam e outros ficaram pelo caminho. Tudo fruto de trabalho árduo de pessoas de carne e osso, ao longo das décadas, para que pudéssemos chegar ao ponto de desenvolvimento e conhecimento que temos hoje, e de que ele, Felipe Massa, pudesse, entre outros, beneficiar.
Deus que, se é omnipresente como dizem, presenciou o acidente e nada fez para que aquilo não acontecesse. Ou, numa hipótese que muitos não considerarão possível, ainda que seja concebível, Deus quis que acontecesse daquela forma.
Seja como for, ao não impedir, compactuou. É como estarmos numa peça de teatro em que somos todos marionetas ao dispor do senhor que puxa os cordelinhos. Podemos ter a liberdade de pensar, mas os nossos movimentos e o nosso destino ficam ao sabor alheio. Que significado tem uma pessoa agradecer a um Deus que não se sabe que papel teve no seu acidente, e cujo papel, por igual razão, também não se sabe ter tido na sua recuperação, excluindo o de, pelo menos, não ter conspirado contra?
Será um agradecimento submisso, de alguém que se submeteu a Deus e se declara à sua mercê, como diz o islamismo ? Alguém que não critica ou pede explicações quando acontece o infortúnio, mas que agradece quando acontecem coisas boas ?
É uma pessoa ser colocada no mundo com certas características e depois aprender, à custa de sofrimento, a melhorá-las e agradecer a Deus essa possibilidade - quando têm essa possibilidade e não morrem no processo, num qualquer acidente estúpido ?
Enquanto isso, outras pessoas são incomparavelmente mais sortudas, felizes e vivem uma vida muito mais preenchida e longa. É por isso que se acredita na reencarnação ? Porque, mais cedo ou mais tarde, também nos vai calhar na rifa cósmica nascer no sítio certo, à hora certa, nas condições e ambiente social e genético certos, como pessoas, outros animais, plantas ou árvores ?
Ninguém sabe a resposta. Muita gente acredita que sabe a resposta, mas ninguém consegue demonstrar que está certo. Ninguém sabe o que o futuro reserva. Ninguém sabe explicar o funcionamento "disto".
"Isto" é sem dúvida muito interessante, sem dúvida. Reconfortante, recompensador quando nos esforçamos e a coisa corre bem; que nos torna humildes quando não corre bem e temos mais chances e conseguimos com determinação, sabedoria e humildade, vencer. Do superlativo positivo ao superlativo negativo existe de tudo, em quantidades e em espaços variáveis.
Ninguém sabe porque é que existimos, e como é que existimos. Ninguém sabe o que é o contrário de "haver".
Pode ser que um dia lá cheguemos. Cada dia sabemos mais. De coisas que conseguimos, de facto, demonstrar.
Talvez um dia também consigamos demonstrar científicamente a teoria social do porquê muitas pessoas sentirem a necessidade de acreditar em Deus, mesmo aquelas pessoas que sabem que antes de Jesus Cristo, o seu Pai e o Espírito Santo, houve muitos outros Deuses, inclusive estátuas da Deusa egípcia Ísis com o menino Órus ao colo, que foram depois utilizadas, tal qual, como mostrando a Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo.
Mesmo para esses, que não ignoram a história e o conhecimento acumulado da humanidade, que sabem que todos os Deuses são relativos, porque conhecem os que são venerados agora e os que foram venerados antes, mesmo para alguns desses continua a fazer sentido a crença numa entidade superior, desligada das religiões - tão terrenas, efémeras e mutáveis, por muito impossível que lhes seja descrever o como e o porquê.
Ora aí está uma pergunta interessante: porque é algumas pessoas têm a necessidade de acreditar ? É genético ? É social ?
A mim porém nunca me convenceu a explicação que nunca foi explicada. Não é só pelo facto de nunca ter sido explicada, demonstrada, e isso dava pano para mangas, mas pelo facto de essa explicação, por muito gloriosa que possa ser, não responder às duas perguntas fundamentais: como, porquê?
Como é que há Deus, porque é que há Deus ?
Como é que existimos, porque é que existimos ?
A simples possibilidade que nós, seres humanos temos de fazer estas perguntas, é simultaneamente fabulosa, maravilhosa e um autêntico orgasmo da existência, mas ao mesmo tempo é aterradora. O facto de, ao contrário das crianças muito novas, termos plena consciência do aqui e do agora e não sabermos responder às questões que entretanto tivemos o brilhantismo de conseguir colocar. É talvez pelo terror que isso provoca que há pessoas que decidem, deixam-se, submeter-se a um Deus desconhecido, que julgam, através de múltiplas histórias que enformam uma civilização, conhecer. Sempre é melhor ter uma explicação que nos sirva de abóbada do que o vazio.
Há mesmo quem decida que Deus não é terceiro, mas que somos todos, tudo o que existe e conhecemos e o que existe e ainda não conhecemos. Mas, ainda assim, as duas perguntas acima colocadas ficam por responder e nenhuma das questões acerca do funcionamento do "matrix" fica esclarecida.
Eu prefiro o vazio. Pode parecer estranho. Mas também é verdade que o vazio já foi mais vazio, e há-de ser cada vez menos vazio. Se um dia iremos conseguir responder às duas perguntas que coloquei acima ? Acho que não. Tenho quase a certeza que não, que nunca vamos descobrir. Nesse dia tudo acabaria. Teríamos chegado, por assim dizer, ao fim do jogo, do puzzle. E no meu modesto entender, este puzzle é infinito.
E com o que temos sempre nos governámos, venha Deus daqui ou dali, apareça e desapareça esta ou aquela religião, esta ou aquela crença, nós existimos ao longo dessa história. Porque nos temos uns aos outros. E eu acredito nas mulheres e nos homens. Mesmo quando não acredito no que eles dizem, é o que temos. É nossa tarefa fazermos com o que temos o melhor que pudermos. Se quisermos ser felizes, claro. É cá uma intuição que eu tenho :D
6 de junho de 2010
Aderir a um clube de futebol nos tempos que correm
Não é novidade para quem segue este blogue (umas estóicas duas ou três pessoas) que não tenho especial simpatia por nenhum clube de futebol; não sou sócio nem adepto. Dito isto, já fui simpatizante do Sporting, na altura em que o Paulo Bento lá estava. E desde que ele se foi embora, regressei à minha condição de espectador algo atento de todo o futebol, sem especiais simpatias por ninguém.
A pessoa que mais gostava de futebol lá em casa era o meu avô, mas ele morreu cedo, na minha infância, e o meu pai, embora interessado nas artes futebolísticas, nunca demonstrou uma grande paixão por esta modalidade, nem clubismo de qualquer espécie. Não tenho por isso um passado que me influencie num ou noutro sentido.
Mas se o passado é importante, o presente também o é, e eu nunca abdico de pensar pela minha cabeça, ao ponto de cometer muitas asneiras na minha pretensa sabedoria (leia-se ignorância), mas sempre com o propósito de aprender mais.
Ora, não descontando os papéis da genética e da formação familiar inicial, posso afirmar que, observando o fenómeno do futebol, o que eu quero mesmo é assistir a bons jogos.
Coisa que, curiosamente, os clubes em Portugal quase sempre insistem em não nos providenciar. Ficamo-nos pelo produto de segunda categoria que é assistir a acaloradas discussões entre treinadores de bancada que acham que o árbitro é um gatuno (parece que os há) ou que, depois de terem visto o lance vinte vezes, de cinco ângulos diferentes e em câmara lenta no conforto da sua cadeira, não havia maneira de o árbitro não ter visto aquela falta (escandaloso!). Ah, e nos últimos tempos até tivemos direito a ouvir umas deliciosas escutas entre árbitros e dirigentes no Youtube, algo que, ao contrário da SportTV, até é um espectáculo gratuito, mas de igual qualidade...
Ora bem, para mim, espectador, o futebol devia ser um jogo. Sim, um jogo. Uma competição saudável e uma forma de passar os tempos livres. Algo que as pessoas não levassem como a razão da sua existência, nem mesmo ainda que apenas durante o jogo ou nos momentos após. Sabem aquelas pessoas que ficam com um melão depois de o seu clube perder ? Até isso me parece um pouco exagerado. Depois há os hooligans, nome estrangeiro pomposo que até nem lhes faz jus, mas que é uma benesse que lhes confiro, hoje que estou bem disposto.
Mas vamos ao que interessa: como pessoa que sou e não uma qualquer espécie de Deus, não faço a menor ideia do que vai na cabeça de um adepto. Não sei, principalmente, no que o faz ser adepto deste ou daquele clube, algo que não seja tradição familiar ou do grupo de amigos. No fundo, sinto-me uma mulher.
É que nos dias que correm, uma equipa tanto tem jogadores de uma nacionalidade como de outra, tanto são transferidos de uma equipa para a sua rival, tanto o treinador é desta como daquela ao atravessar da rua. Um presidente de um clube tanto é adepto como gestor, e hoje está aqui e amanhã está ali.
O que é que define na sua essência um clube de futebol ? As glórias passadas ? Mas porquê ? Os grandes nomes que estão associados a determinado clube ? Sim, parece-me razoável, mas chega ? É que eles não definem nada no clube. A proximidade geográfica (é o clube lá da terra) ? Sim, mas se tudo muda como disse há pouco, e apenas ficam os tijolos e o telhado, o que é que isso interessa, ou, melhor, significa ?
O que é que leva as pessoas a serem de um clube, a apaixonarem-se por uma abstracção volátil que ninguém sabe muito bem onde ancorar ? Será mesmo das tradições familiares ? "Olha, na minha família são todos benfiquistas, nasci e cresci a assistir com a minha família e a torcer por este clube, afeiçoei-me. Pronto." Pois, é bem capaz de ser isto, acima de tudo.
É assim uma espécie de homenagem inconsciente ao nosso desenvolvimento enquanto pessoas, à nossa família, àqueles que nos dizem algo, que nos são queridos, às quais vamos buscar pontos de referência para nos situarmos no mundo. Todos precisamos de uma certa segurança, de um cantinho com que nos identifiquemos.
O que eu lamento é quando nada disto é pensado, mas apenas automatizado. Por estranho que pareça, a emoção que se sente por um clube é aqui, neste exemplo, fruto de uma mecanização, enraizada desde criança. Não deve haver pior emoção do que uma que é mecanizada.
E se há coisa que eu gostava que não acontecesse é os pais dizerem com orgulho "O meu filho ainda não tinha nascido e já o tinha inscrito como sócio do clube". Uma coisa é vibrar com os jogos, levar os filhos ao futebol, e mostrar quais as equipas que existem e as diferentes modalidades, outra bem diferente é filiar mais um. Todos sabemos que isso não é justo para a formação das escolhas e distorce a concorrência! Além do que é perfeitamente dispensável. Ninguém precisa de futebol para viver. E no entanto era bom que se pudesse ter a 'máquina por formatar' quando pudermos fazer as nossas escolhas no que não é essencial.
Mas, dizia eu, se por um lado temos os laços afectivos/familiares que nos ligam a determinada opção, ainda que involuntária e inconsciente, por outro temos o mundo globalizado, com liberdade de movimentos, e eu pergunto: esta ligação afectiva ainda faz sentido, mesmo para quem não pense muito no porque é que acredita ?
Qual é a ideia que um adepto do Chelsea tem ? O clube é detido por um russo, teve um treinador vindo de fora, português, que os levou a ganhar o campeonato pela primeira vez em 50 anos, com um plantel em que figuravam - ainda figuram - portugueses, ingleses, brasileiros, alemães. Depois os treinadores vão-se embora mais ano menos ano, chega outro, que imprime um estilo diferente, alguns jogadores são transferidos, até que às tantas são quase todos diferentes, e às tantas, o dono, que tanto tem um clube de futebol, como um iate de 30 metros, um dia pode passar o clube para outras mãos.
Que identidade há nisto ?
Eu percebo perfeitamente quando alguém me diz que é adepto do Manchester United: o Sir Alex Fergusson é treinador do clube desde 1986. Há uma linha condutora. O mesmo quando alguém me diz ser adepto do Futebol Clube do Porto, dirigido por Pinto da Costa desde 1982.
Em todos os outros clubes o sentimento de pertença acaba por desvanecer-se, digo eu.
Eu sei que se todos fossem como eu o mundo do futebol seria bem diferente, haveria um espírito mais construtivo, mais racional, e menos efusivamente alienado. O futebol seria como um jogo de ténis: civilizado, em que um bom jogo, com jogadores de boa técnica e bonita performance, seriam os principais pontos de atracção, muito mais do que saber de que lado se está.
Estou com certeza a delirar com outro país que não este. Mas se não se sonha não se constrói o presente nem o futuro.
O principal que eu queria aqui dizer, e que resulta do primeiro parágrafo, é que o que conta verdadeiramente é por um lado, o espectáculo, e por outro, as pessoas. O Paulo Bento é uma pessoa que pode não ter o brilhantismo do José Mourinho (mas também é mais novo), mas tem personalidade, diz o que pensa, e conseguiu logo no início da carreira resultados com uma equipa jovem e imatura, um orçamento muito inferior aos seus principais rivais e dando a cara em momentos que até nem devia ter sido ele a aguentar com isso. Gostei do Paulo Bento no Sporting, mas não gostei do Sporting sem o Paulo Bento. Quando o Paulo Bento treinar outra equipa, é bem possível que siga essa equipa. Assim como as pessoas que se revêm no estilo de Sir Alex Ferguson, ou de Pinto da Costa.
O que conta são as pessoas. As instituições são feitas de pessoas.
E se há maior prova de que o que conta são as pessoas, o José Mourinho está aí para o provar cada vez mais. Parecendo que não, o José Mourinho trouxe e está a trazer ao futebol mais do que uma revolução. Mas isso dava (e vai dar) outro post.
A pessoa que mais gostava de futebol lá em casa era o meu avô, mas ele morreu cedo, na minha infância, e o meu pai, embora interessado nas artes futebolísticas, nunca demonstrou uma grande paixão por esta modalidade, nem clubismo de qualquer espécie. Não tenho por isso um passado que me influencie num ou noutro sentido.
Mas se o passado é importante, o presente também o é, e eu nunca abdico de pensar pela minha cabeça, ao ponto de cometer muitas asneiras na minha pretensa sabedoria (leia-se ignorância), mas sempre com o propósito de aprender mais.
Ora, não descontando os papéis da genética e da formação familiar inicial, posso afirmar que, observando o fenómeno do futebol, o que eu quero mesmo é assistir a bons jogos.
Coisa que, curiosamente, os clubes em Portugal quase sempre insistem em não nos providenciar. Ficamo-nos pelo produto de segunda categoria que é assistir a acaloradas discussões entre treinadores de bancada que acham que o árbitro é um gatuno (parece que os há) ou que, depois de terem visto o lance vinte vezes, de cinco ângulos diferentes e em câmara lenta no conforto da sua cadeira, não havia maneira de o árbitro não ter visto aquela falta (escandaloso!). Ah, e nos últimos tempos até tivemos direito a ouvir umas deliciosas escutas entre árbitros e dirigentes no Youtube, algo que, ao contrário da SportTV, até é um espectáculo gratuito, mas de igual qualidade...
Ora bem, para mim, espectador, o futebol devia ser um jogo. Sim, um jogo. Uma competição saudável e uma forma de passar os tempos livres. Algo que as pessoas não levassem como a razão da sua existência, nem mesmo ainda que apenas durante o jogo ou nos momentos após. Sabem aquelas pessoas que ficam com um melão depois de o seu clube perder ? Até isso me parece um pouco exagerado. Depois há os hooligans, nome estrangeiro pomposo que até nem lhes faz jus, mas que é uma benesse que lhes confiro, hoje que estou bem disposto.
Mas vamos ao que interessa: como pessoa que sou e não uma qualquer espécie de Deus, não faço a menor ideia do que vai na cabeça de um adepto. Não sei, principalmente, no que o faz ser adepto deste ou daquele clube, algo que não seja tradição familiar ou do grupo de amigos. No fundo, sinto-me uma mulher.
É que nos dias que correm, uma equipa tanto tem jogadores de uma nacionalidade como de outra, tanto são transferidos de uma equipa para a sua rival, tanto o treinador é desta como daquela ao atravessar da rua. Um presidente de um clube tanto é adepto como gestor, e hoje está aqui e amanhã está ali.
O que é que define na sua essência um clube de futebol ? As glórias passadas ? Mas porquê ? Os grandes nomes que estão associados a determinado clube ? Sim, parece-me razoável, mas chega ? É que eles não definem nada no clube. A proximidade geográfica (é o clube lá da terra) ? Sim, mas se tudo muda como disse há pouco, e apenas ficam os tijolos e o telhado, o que é que isso interessa, ou, melhor, significa ?
O que é que leva as pessoas a serem de um clube, a apaixonarem-se por uma abstracção volátil que ninguém sabe muito bem onde ancorar ? Será mesmo das tradições familiares ? "Olha, na minha família são todos benfiquistas, nasci e cresci a assistir com a minha família e a torcer por este clube, afeiçoei-me. Pronto." Pois, é bem capaz de ser isto, acima de tudo.
É assim uma espécie de homenagem inconsciente ao nosso desenvolvimento enquanto pessoas, à nossa família, àqueles que nos dizem algo, que nos são queridos, às quais vamos buscar pontos de referência para nos situarmos no mundo. Todos precisamos de uma certa segurança, de um cantinho com que nos identifiquemos.
O que eu lamento é quando nada disto é pensado, mas apenas automatizado. Por estranho que pareça, a emoção que se sente por um clube é aqui, neste exemplo, fruto de uma mecanização, enraizada desde criança. Não deve haver pior emoção do que uma que é mecanizada.
E se há coisa que eu gostava que não acontecesse é os pais dizerem com orgulho "O meu filho ainda não tinha nascido e já o tinha inscrito como sócio do clube". Uma coisa é vibrar com os jogos, levar os filhos ao futebol, e mostrar quais as equipas que existem e as diferentes modalidades, outra bem diferente é filiar mais um. Todos sabemos que isso não é justo para a formação das escolhas e distorce a concorrência! Além do que é perfeitamente dispensável. Ninguém precisa de futebol para viver. E no entanto era bom que se pudesse ter a 'máquina por formatar' quando pudermos fazer as nossas escolhas no que não é essencial.
Mas, dizia eu, se por um lado temos os laços afectivos/familiares que nos ligam a determinada opção, ainda que involuntária e inconsciente, por outro temos o mundo globalizado, com liberdade de movimentos, e eu pergunto: esta ligação afectiva ainda faz sentido, mesmo para quem não pense muito no porque é que acredita ?
Qual é a ideia que um adepto do Chelsea tem ? O clube é detido por um russo, teve um treinador vindo de fora, português, que os levou a ganhar o campeonato pela primeira vez em 50 anos, com um plantel em que figuravam - ainda figuram - portugueses, ingleses, brasileiros, alemães. Depois os treinadores vão-se embora mais ano menos ano, chega outro, que imprime um estilo diferente, alguns jogadores são transferidos, até que às tantas são quase todos diferentes, e às tantas, o dono, que tanto tem um clube de futebol, como um iate de 30 metros, um dia pode passar o clube para outras mãos.
Que identidade há nisto ?
Eu percebo perfeitamente quando alguém me diz que é adepto do Manchester United: o Sir Alex Fergusson é treinador do clube desde 1986. Há uma linha condutora. O mesmo quando alguém me diz ser adepto do Futebol Clube do Porto, dirigido por Pinto da Costa desde 1982.
Em todos os outros clubes o sentimento de pertença acaba por desvanecer-se, digo eu.
Eu sei que se todos fossem como eu o mundo do futebol seria bem diferente, haveria um espírito mais construtivo, mais racional, e menos efusivamente alienado. O futebol seria como um jogo de ténis: civilizado, em que um bom jogo, com jogadores de boa técnica e bonita performance, seriam os principais pontos de atracção, muito mais do que saber de que lado se está.
Estou com certeza a delirar com outro país que não este. Mas se não se sonha não se constrói o presente nem o futuro.
O principal que eu queria aqui dizer, e que resulta do primeiro parágrafo, é que o que conta verdadeiramente é por um lado, o espectáculo, e por outro, as pessoas. O Paulo Bento é uma pessoa que pode não ter o brilhantismo do José Mourinho (mas também é mais novo), mas tem personalidade, diz o que pensa, e conseguiu logo no início da carreira resultados com uma equipa jovem e imatura, um orçamento muito inferior aos seus principais rivais e dando a cara em momentos que até nem devia ter sido ele a aguentar com isso. Gostei do Paulo Bento no Sporting, mas não gostei do Sporting sem o Paulo Bento. Quando o Paulo Bento treinar outra equipa, é bem possível que siga essa equipa. Assim como as pessoas que se revêm no estilo de Sir Alex Ferguson, ou de Pinto da Costa.
O que conta são as pessoas. As instituições são feitas de pessoas.
E se há maior prova de que o que conta são as pessoas, o José Mourinho está aí para o provar cada vez mais. Parecendo que não, o José Mourinho trouxe e está a trazer ao futebol mais do que uma revolução. Mas isso dava (e vai dar) outro post.
17 de maio de 2010
Se pudesse voltar atrás faria o mesmo ?
Esta é para mim uma das perguntas mais enganadoras de sempre.
Quando dizemos por exemplo que não gostámos de determinada experiência no passado, temos duas atitudes a tomar: a inteligente e a estúpida.
A estúpida é andar para sempre com um sentimento de tempo perdido, de arrependimento, angústia e culpa, e de sonhar o que se faria se se pudesse voltar atrás e sonhar com essa possibildade que nunca vai acontecer.
A atitude inteligente é considerar duas coisas muito simples: primeiro, não se pode voltar atrás, está feito, há que seguir em frente. Segundo, tudo aquilo por que passamos é útil.
Vamos lá distinguir uma coisa: o facto de dizermos e considerarmos que não gostámos de determinada experiência não é a mesma coisa que dizer que foi inútil, nem tão pouco uma coisa exclui a outra.
O facto de eu não ter gostado não significa que eu deva ter para mim que aquilo nunca devia ter acontecido.
O simples facto de eu o saber agora resulta justamente dessa experiência, o que é útil, se começarmos a encarar o PRESENTE e o FUTURO, em vez do PASSADO.
Portanto, o melhor a fazer é pegar em todos os dados da nossa experiência e através da meditação e análise dos mesmos com eles evoluir.
Se no meio dessas experiências tiver havido terceiros que ficaram magoados com a nossa atitude, de nada nos serve andarmos a penitenciarmo-nos para sempre. Reconhecer o erro, e fazer, com base no que aprendemos, o que puder ser feito para recompor (não necessariamente "repor") a situação. Ou pura e simplesmente reconhecer, com bom senso, que é tempo de cada um ir à sua vida.
O que me leva à pergunta inicial: "Se eu pudesse voltar atrás mudaria ou faria o mesmo ? " é um pergunta que parte de uma falsa premissa: eu só tomaria uma atitude diferente se tivesse prévio conhecimento das suas consequências, que é o caso, o seja, eu, com os conhecimentos que tenho hoje, viveria uma vida diferente, porque experienciar exactamente a mesma coisa duas vezes é inútil.
Mas isto é intelectualmente desonesto. O que a pergunta quer verdadeiramente dizer é: Você vive bem com todo o seu passado ? Resolveu o que tinha a resolver, extraiu de todas as experiências, boas e más, sábios conhecimentos para lidar com o presente e o que vier ? Isto é, você é uma pessoa equilibrada ?
Quando dizemos por exemplo que não gostámos de determinada experiência no passado, temos duas atitudes a tomar: a inteligente e a estúpida.
A estúpida é andar para sempre com um sentimento de tempo perdido, de arrependimento, angústia e culpa, e de sonhar o que se faria se se pudesse voltar atrás e sonhar com essa possibildade que nunca vai acontecer.
A atitude inteligente é considerar duas coisas muito simples: primeiro, não se pode voltar atrás, está feito, há que seguir em frente. Segundo, tudo aquilo por que passamos é útil.
Vamos lá distinguir uma coisa: o facto de dizermos e considerarmos que não gostámos de determinada experiência não é a mesma coisa que dizer que foi inútil, nem tão pouco uma coisa exclui a outra.
O facto de eu não ter gostado não significa que eu deva ter para mim que aquilo nunca devia ter acontecido.
O simples facto de eu o saber agora resulta justamente dessa experiência, o que é útil, se começarmos a encarar o PRESENTE e o FUTURO, em vez do PASSADO.
Portanto, o melhor a fazer é pegar em todos os dados da nossa experiência e através da meditação e análise dos mesmos com eles evoluir.
Se no meio dessas experiências tiver havido terceiros que ficaram magoados com a nossa atitude, de nada nos serve andarmos a penitenciarmo-nos para sempre. Reconhecer o erro, e fazer, com base no que aprendemos, o que puder ser feito para recompor (não necessariamente "repor") a situação. Ou pura e simplesmente reconhecer, com bom senso, que é tempo de cada um ir à sua vida.
O que me leva à pergunta inicial: "Se eu pudesse voltar atrás mudaria ou faria o mesmo ? " é um pergunta que parte de uma falsa premissa: eu só tomaria uma atitude diferente se tivesse prévio conhecimento das suas consequências, que é o caso, o seja, eu, com os conhecimentos que tenho hoje, viveria uma vida diferente, porque experienciar exactamente a mesma coisa duas vezes é inútil.
Mas isto é intelectualmente desonesto. O que a pergunta quer verdadeiramente dizer é: Você vive bem com todo o seu passado ? Resolveu o que tinha a resolver, extraiu de todas as experiências, boas e más, sábios conhecimentos para lidar com o presente e o que vier ? Isto é, você é uma pessoa equilibrada ?
5 de maio de 2010
Portugal, Estado laico ?
Estado laico, com rigor nas contas públicas em tempos de acentuada crise, com o PEC a ser escrutinado e antecipado na sua aplicação, num país com um crónico problema de competitividade e falta de produtividade ?
"Segundo António Costa, não há "uma contabilidade total" acerca dos custos da visita para a autarquia (...)" - Diário Económico, link aqui
De acordo com a revista Visão desta semana, no artigo intitulado "Terá o Papa impacto na economia ?" (pág 46-48), também o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirma que ""não há nenhuma estimativa dos custos da operação", alegando que esta é repartida por diferentes organismos "A avaliação só poderá ser feita a posteriori"". Igual resposta tem o Ministério da Administração Interna: "Questionado sobre os custos da operação de segurança, o Ministério da Administração Interna disse não dispor de números, embroa se saiba que forças de segurança especiais e serviços secretos participarão na operação de protecção de Bento XVI".
O próprio Cardeal Patriarca noutro dia defendeu (ler aqui no Público) que era preciso diminuir o número de cristãos faz-de-conta, numa atitude de proselitismo ao contrário, mas que só lhe fica bem.
No entanto, todas as escolas públicas vão fechar no dia 13, assim como as do concelho de Lisboa na tarde de dia 11 e as do concelho do Porto na manhã de dia 14, e os pais que tenham de ficar com os filhos e não os possam levar para o local de trabalho, têm também de tirar férias ou perder um dia e meio de salário, seja qual for a sua confissão religiosa, se a tiverem. - Notícia no Público, aqui.
Mas não se resume às escolas: de acordo com o despacho será concedida tolerância de ponto aos trabalhadores que exercem funções públicas na administração central e nos institutos públicos ( - hospitais - notícias aqui e aqui, também estão abrangidos) tendo em conta “o interesse de grande número de portugueses em poderem estar presentes nas celebrações."
Portugal neste momento não tem Governo, nem governo, apenas ministros que se contradizem, um Primeiro Ministro que acumula trapalhadas no currículo sem que nada aconteça para se esclarecer a situação jurídica e política, jogos políticos à esquerda com as obras públicas e medidas populares como a da tolerância de ponto como a acima exposta, sem que haja a mínima noção, um cálculo que seja, dos custos para a sociedade em geral.
Os verdadeiros cristãos e católicos não se importariam nada de fazer esse sacrifício (que para muitos até não o seria de todo) de tirar um dia de férias, digo eu, afinal não é todos os dias que o Papa vem a Portugal.
O problema é que essa contabilidade não é feita. Presume-se inilidívelmente que a esmagadora maioria dos portugueses é católica praticante e que segue os ensinamentos e directrizes da Igreja.
Mas mesmo que fosse o caso, será que que o Estado deve ter este papel, especialmente em tempos de crise ?
Faz-me lembrar o motor da Europa, a Alemanha, em que para não se entregar uma parte dos impostos à Igreja é necessário ir a uma conservatória dizer expressamente, no papel, que não se professa aquela religião. Uma atitude deplorável e discriminatória, mas que não surpreende, num país em que é permitido que um partido se chame CDU - Christlich Demokratische Union (Christian Democratic Union), o que em Portugal, por exemplo é proibido (artigo 51.º, n.º 3 da Constituição), por muito que os miltantes do CDS gostassem que o "C" correspondesse à nomenclatura que usam de "Democratas-Cristãos".
- post actualizado no dia 05.05.2010, às 17:49
"Segundo António Costa, não há "uma contabilidade total" acerca dos custos da visita para a autarquia (...)" - Diário Económico, link aqui
De acordo com a revista Visão desta semana, no artigo intitulado "Terá o Papa impacto na economia ?" (pág 46-48), também o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirma que ""não há nenhuma estimativa dos custos da operação", alegando que esta é repartida por diferentes organismos "A avaliação só poderá ser feita a posteriori"". Igual resposta tem o Ministério da Administração Interna: "Questionado sobre os custos da operação de segurança, o Ministério da Administração Interna disse não dispor de números, embroa se saiba que forças de segurança especiais e serviços secretos participarão na operação de protecção de Bento XVI".
O próprio Cardeal Patriarca noutro dia defendeu (ler aqui no Público) que era preciso diminuir o número de cristãos faz-de-conta, numa atitude de proselitismo ao contrário, mas que só lhe fica bem.
No entanto, todas as escolas públicas vão fechar no dia 13, assim como as do concelho de Lisboa na tarde de dia 11 e as do concelho do Porto na manhã de dia 14, e os pais que tenham de ficar com os filhos e não os possam levar para o local de trabalho, têm também de tirar férias ou perder um dia e meio de salário, seja qual for a sua confissão religiosa, se a tiverem. - Notícia no Público, aqui.
Mas não se resume às escolas: de acordo com o despacho será concedida tolerância de ponto aos trabalhadores que exercem funções públicas na administração central e nos institutos públicos ( - hospitais - notícias aqui e aqui, também estão abrangidos) tendo em conta “o interesse de grande número de portugueses em poderem estar presentes nas celebrações."
Portugal neste momento não tem Governo, nem governo, apenas ministros que se contradizem, um Primeiro Ministro que acumula trapalhadas no currículo sem que nada aconteça para se esclarecer a situação jurídica e política, jogos políticos à esquerda com as obras públicas e medidas populares como a da tolerância de ponto como a acima exposta, sem que haja a mínima noção, um cálculo que seja, dos custos para a sociedade em geral.
Os verdadeiros cristãos e católicos não se importariam nada de fazer esse sacrifício (que para muitos até não o seria de todo) de tirar um dia de férias, digo eu, afinal não é todos os dias que o Papa vem a Portugal.
O problema é que essa contabilidade não é feita. Presume-se inilidívelmente que a esmagadora maioria dos portugueses é católica praticante e que segue os ensinamentos e directrizes da Igreja.
Mas mesmo que fosse o caso, será que que o Estado deve ter este papel, especialmente em tempos de crise ?
Faz-me lembrar o motor da Europa, a Alemanha, em que para não se entregar uma parte dos impostos à Igreja é necessário ir a uma conservatória dizer expressamente, no papel, que não se professa aquela religião. Uma atitude deplorável e discriminatória, mas que não surpreende, num país em que é permitido que um partido se chame CDU - Christlich Demokratische Union (Christian Democratic Union), o que em Portugal, por exemplo é proibido (artigo 51.º, n.º 3 da Constituição), por muito que os miltantes do CDS gostassem que o "C" correspondesse à nomenclatura que usam de "Democratas-Cristãos".
- post actualizado no dia 05.05.2010, às 17:49
14 de fevereiro de 2010
António Costa não quer substituir o PM
Segundo o DN, António Costa diz que ""está absolutamente fora de causa" abandonar a Câmara de Lisboa para exercer funções governamentais."
Segundo o diário, António Costa diz que ""Em primeiro lugar, não é necessário substituir o chefe do governo. Em segundo lugar, estou impossibilitado de o fazer porque tenho um compromisso com a cidade", disse António Costa aos jornalistas quando confrontado com a possibilidade de assumir o lugar de Sócrates."
Será que estes políticos não aprendem que não se deve dizer "nunca" ? Reparem ali ao lado, Paulo Rangel que dizia no dia 29 de Outubro que não, categoricamente, e agora é candidato à liderança do PSD.
Na política tudo muda e umas nuances fundamentais nas perguntas dos jornalistas talvez surtissem pelo menos um desconforto no Dr. António Costa para dar a resposta que interessa de modo frontal - sugiro que se pergunte ao Dr. António Costa se está disposto a avançar para a liderança do PS em caso de dissolução da Assembleia da República e consequentemente "candidatar-se" a PM., em novas eleições. Não foi ele que hoje, na mesma ocasião já sugeriu que a oposição apresente uma moção de censura ? Afinal, nas palavras dele não é necessário substituir o chefe do governo... talvez seja é preciso substituir o governo todo, mediante eleições que legitime quem se seguir a José Sócrates.
Vamos lá ter juízo, todos sabemos que ninguém quer pegar num governo sem maioria absoluta no pântano (outra vez) em que estamos, habilitando-se a ficar com a imagem desgastada e sem levar para casa qualquer mérito por ter aguentado o barco (se é que é possivel fazê-lo).
Ninguém quer ter a ingrata tarefa de ser o Santana Lopes, versão 2.0. Só eleições em Maio resolvem este problema. E Santana Lopes, parecendo que não, tinha uma maioria absoluta parlamentar, com a coligação com o CDS; este PS nem isso tem a seu favor. E claro, o PSD/CDS de então caiu por muito menos, e não vai ser a conjuntura difícil que vivemos que vai impedir as eleições; porque se mal estamos, pior vamos ficar se nada se fizer e continuarmos com o clima político insuportável a médio prazo em que a oposição é que governa, portanto, dos dois males, venha o menos mau, que possibilite a mudança para melhor.
Se os pequenos partidos, que conseguiram um excelente acréscimo no número de deputados não estiverem dispostos a irem a eleições com medo de os perder, só mostram o quão egoístas são e o quanto desprezam o povo que representam. Vai ser interessante observar qual vai ser a saída prática para tudo isto.
Segundo o diário, António Costa diz que ""Em primeiro lugar, não é necessário substituir o chefe do governo. Em segundo lugar, estou impossibilitado de o fazer porque tenho um compromisso com a cidade", disse António Costa aos jornalistas quando confrontado com a possibilidade de assumir o lugar de Sócrates."
Será que estes políticos não aprendem que não se deve dizer "nunca" ? Reparem ali ao lado, Paulo Rangel que dizia no dia 29 de Outubro que não, categoricamente, e agora é candidato à liderança do PSD.
Na política tudo muda e umas nuances fundamentais nas perguntas dos jornalistas talvez surtissem pelo menos um desconforto no Dr. António Costa para dar a resposta que interessa de modo frontal - sugiro que se pergunte ao Dr. António Costa se está disposto a avançar para a liderança do PS em caso de dissolução da Assembleia da República e consequentemente "candidatar-se" a PM., em novas eleições. Não foi ele que hoje, na mesma ocasião já sugeriu que a oposição apresente uma moção de censura ? Afinal, nas palavras dele não é necessário substituir o chefe do governo... talvez seja é preciso substituir o governo todo, mediante eleições que legitime quem se seguir a José Sócrates.
Vamos lá ter juízo, todos sabemos que ninguém quer pegar num governo sem maioria absoluta no pântano (outra vez) em que estamos, habilitando-se a ficar com a imagem desgastada e sem levar para casa qualquer mérito por ter aguentado o barco (se é que é possivel fazê-lo).
Ninguém quer ter a ingrata tarefa de ser o Santana Lopes, versão 2.0. Só eleições em Maio resolvem este problema. E Santana Lopes, parecendo que não, tinha uma maioria absoluta parlamentar, com a coligação com o CDS; este PS nem isso tem a seu favor. E claro, o PSD/CDS de então caiu por muito menos, e não vai ser a conjuntura difícil que vivemos que vai impedir as eleições; porque se mal estamos, pior vamos ficar se nada se fizer e continuarmos com o clima político insuportável a médio prazo em que a oposição é que governa, portanto, dos dois males, venha o menos mau, que possibilite a mudança para melhor.
Se os pequenos partidos, que conseguiram um excelente acréscimo no número de deputados não estiverem dispostos a irem a eleições com medo de os perder, só mostram o quão egoístas são e o quanto desprezam o povo que representam. Vai ser interessante observar qual vai ser a saída prática para tudo isto.
9 de fevereiro de 2010
Se esta senhora chegar a conseguir condidatar-se à presidência dos EUA o mundo está doido e sem esperança
Olha quem é ela, a Sarah Palin, aquela senhora que escreveu um livro e que já não é gonvernadora do Alaska e que... escreve as ideias fundamentais na mão, tal como os alunos que cabulam nas matérias de que não gostam, para as quais não têm jeito e das quais nada percebem...
Link do Público para a notícia e o vídeo:
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=0a36c6b9-3d87-487f-8c7b-4a4289d2adc7
Link do Huffington Post para a fotografia, comentário sarcástico e análise da CNN entre outros:
http://www.huffingtonpost.com/stefan-sirucek/did-palin-use-crib-notes_b_452458.html
Link do Público para a notícia e o vídeo:
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=0a36c6b9-3d87-487f-8c7b-4a4289d2adc7
Link do Huffington Post para a fotografia, comentário sarcástico e análise da CNN entre outros:
http://www.huffingtonpost.com/stefan-sirucek/did-palin-use-crib-notes_b_452458.html
21 de dezembro de 2009
Em prol do conhecimento universal
A Wikipedia já faz parte do meu quotidiano; tornou-se uma companheira de facto nas minhas incursões na internet, em pesquisas sobre tudo e mais alguma coisa. É quase como beber água. Já não sei o que é a internet sem este site.A Wikipedia, não sendo um projecto com fins comerciais, depende de contribuições voluntárias.
Para mim, uma enciclopédia é um dos bens mais preciosos que existem; e, neste novo formato, a informação a nível global, em várias línguas, acessível no mundo inteiro, por todos, de graça, é um projecto valiosíssimo, e no qual eu acredito.
Mas também acredito que isto de andarmos a cavalgar a onda dos outros é uma idiotice e uma burrice a médio/longo prazo.
Ou, em linguagem de economista - e um pouco mais polida em consequência disso -, aproveitar a externalidade positiva - o facto de outros contribuirem financeiramente para a manutenção do site, não dando nós nenhum para a causa, quando podemos, é uma sacanice, um comportamento digno dos abutres (e com esta tirada abandono a linguagem de economista).
Atentem, eu disse "quando podemos", porque quando não se pode, não se pode, e algo que é grátis e universal tem naturalmente em conta esses casos no seu conceito. Mas tirando os casos de necessidade, já pensaram bem quanto é que custa uma enciclopédia numa loja ?
Eu já consultei a Wikipedia muitas centenas de vezes, ao ponto de lhe ter perdido completamente a conta. Por isso, quando a Wikipedia lançou há dias a campanha de angariação de fundos para este ano fiscal, eu não pude ignorar; já o ano passado estive quase para dar, mas enrolei tanto que eles entretanto conseguiram o dinheiro que tinham estipulado. Mas podia ter doado na mesma; eles aceitam doações o ano todo. Foi preguiça aliada ao esquecimento e ao comodismo. Desta vez doei 37 euros.
Eles aceitam doações a partir de UM DÓLAR (também pode ser em Euros). A quantos cafés ou cigarros em manhãs de stress, ou a quantas bugigangas compradas em lojas low-cost que não servem para nada corresponde um dólar ?
Vá, eu sei que este post parece um folheto publicitário, mas é por uma boa causa. Juntem-se.
Labels:
a nossa natureza / our nature,
mim,
oportunidade
20 de dezembro de 2009
Um mundo de embrulhos - 2
Como se não bastasse nascermos embrulhados no ventre das nossas mães, uma inevitabilidade natural (até agora, pelo menos), crescemos e vivemos embrulhados em casas, somos educados e posteriormente trabalhamos dentro de espaços fechados, deslocamo-nos embrulhados em automóveis, metropolitanos, comboios, eléctricos, autocarros, e como se não bastasse, quando a terra nos comer, há-de ser embrulhados num caixão ou então ficaremos para a eternidade embrulhadinhos num pote de cinzas na sala de estar de um dos nossos descendentes (até ao dia em que o gato ou um convidado lhe der um piparote).E depois há por aí umas almas santas que dizem que somos materialistas e que mais-não-sei-o-quê! Pois somos, todos!
Já viram quantos objectos os outros animais chamam a si para se protegerem e para viverem ?
A nossa natureza é esta e não vale a pena negar: é um facto insofismável que a nossa evolução nos trouxe para um patamar em que precisamos de objectos, e em especial de objectos para camuflar a nossa essência, para lhe dar uma aparência mais agradável, para parecer que temos mais poder, para amplificar a nossa presença.
Ser materialista não tem nada de mais nem de menos; é uma característica como outra qualquer; o que nos pode distinguir pela positiva dos restantes animais que vive muito bem sem esta parafernália de tarecos é que saibamos distinguir entre o que nos faz enquanto seres e os objectos que moldámos a partir da natureza e que cirandam à nossa volta para nos ajudar a ser mais felizes - essencialmente felizes e não felizes para a fotografia. Que sirvam para acrescer à nossa felicidade e nunca para a substituir.
Um mundo de embrulhos

Já repararam que vivemos rodeados de embrulhos ?
Nós, ao contrário dos restantes animais, andamos por aí embrulhados em roupa, perfume e maquilhagem; as prendas sejam de Natal, de aniversário ou outra ocasião, são acompanhadas do devido embrulho; os livros de capa dura não raras vezes vêm embrulhados numa capa amovível, escondendo as letras douradas da capa dura; as medidas para governar o país chegam agora em "pacotes de medidas" e no estrangeiro a crise resolve-se com "stimulus package"; os nossos discursos estão o mais das vezes embrulhados em palavras que visam saltitar por entre as polémicas fundamentais do nosso tempo; por fim, não será por acaso que "embrulhada" tem os significados que tem!
26 de julho de 2009
Notas do meu dossiê - parte 2
Último poema escrito em inglês; adolescência tardia; tinha eu 19 anos e muita confusão acumulada na cabeça. As pessoas com quem me cruzo são-me quase todas muito estranhas e não consigo lidar com elas de forma normal. Ainda assim acho que vou tendo a lucidez de conseguir ir descrevendo o que me rodeia. Já sou porém parco nas palavras; quase não escrevo, estou imerso na solidão, na angústia, na incerteza. O pouco que escrevo é talvez mais claro, mais directo, mais crú, sobretudo menos confuso para analisar.
Encontro uma rapariga que me suscita um sentimento estranhíssimo, paralelo à sua própria existência e àquilo de que me lembro que ela própria escrevia. Ofereci-lhe uma rosa vermelha no dia do seu aniversário. E nada mais.
What if you die ?
Dream-disaster premonition
I'll not tolerate having you.
Dream-clouds, boundless infinitude
Daydream desire,
mess
Inflicted on oneself lust
My sordid love for you
P.S. - Fico sempre a achar que a palavra sordid transmite uma ideia mais badalhoca do que aquilo que é a minha intenção (e o duplo significado de lust também não ajuda) . Se quisesse podia agora ter embelezado a coisa e substituído sordid por strange e o poema ficaria com um ar mais normal, mais suave. Mas é isso tudo o que ele não é. A carga significante da última linha atira-o para o nível do desconforto. Mais do que eu queria, é certo, mas prefiro dar esta explicação a alterá-lo. Sordid aqui tem o sentido de desconfortável; de sujo no sentido de ser desonesto, por não ter na realidade nada que ver com amor, apesar de eu idealizar que sim; é antes uma carência afectiva projectada em alguém que naquele momento eu identifiquei como estando tão estranha como eu.
Encontro uma rapariga que me suscita um sentimento estranhíssimo, paralelo à sua própria existência e àquilo de que me lembro que ela própria escrevia. Ofereci-lhe uma rosa vermelha no dia do seu aniversário. E nada mais.
What if you die ?
Dream-disaster premonition
I'll not tolerate having you.
Dream-clouds, boundless infinitude
Daydream desire,
mess
Inflicted on oneself lust
My sordid love for you
P.S. - Fico sempre a achar que a palavra sordid transmite uma ideia mais badalhoca do que aquilo que é a minha intenção (e o duplo significado de lust também não ajuda) . Se quisesse podia agora ter embelezado a coisa e substituído sordid por strange e o poema ficaria com um ar mais normal, mais suave. Mas é isso tudo o que ele não é. A carga significante da última linha atira-o para o nível do desconforto. Mais do que eu queria, é certo, mas prefiro dar esta explicação a alterá-lo. Sordid aqui tem o sentido de desconfortável; de sujo no sentido de ser desonesto, por não ter na realidade nada que ver com amor, apesar de eu idealizar que sim; é antes uma carência afectiva projectada em alguém que naquele momento eu identifiquei como estando tão estranha como eu.
9 de julho de 2009
Notas do meu dossiê

Tenho cá por casa um dossiê onde fui acumulando escritos ao longo da segunda metade da adolescência, a começar nos 15 e a acabar nos 19 anos.
Na essência são parvoíces daquela idade. Muita gente que conheço passados uns anos rasga tudo e mete no lixo. Eu recolhi todos os escritos à medida que os ia encontrando e guardei-os a todos num único dossiê. Há uns bons anos que está estático. É um retrato de uma época. Os sentimentos, as aflições, as questões, as confusões, as certezas, as paixões, de tudo um pouco se pode encontrar.
Estou a considerar publicar aqui algumas coisas desse dossiê. Mas antes uma pergunta. E vocês ? Guardaram os escritos da adolescência ?
6 de julho de 2009
Obrigado! / Thank you!
Vítor, Lady, Rute: obrigado!
Espero continuar a merecer a vossa estima e presença (de espírito)!
(e ainda estou à espera do primeiro comentário de pessoas que sabem que o blog existe! Sim, vocês sabem quem são, seus/uas malandros/as! ;)
Estes 100 demoraram a chegar; foram pensados, alguns repensados. Não deixaram de conter muita parvoíce à mistura, aliás, como previamente anunciado :D. Não quero fazer do blog uma antologia, nem tão pouco os primeiros 100. É o dia-a-dia, com racionalidades e impulsos à mistura. Se houve porém uma coisa que quis sempre fazer foi colocar algo de mim, embora por vezes muito indirectamente.
Sinto que ainda agora comecei a estar à vontade para escrever num 'papel' aberto ao mundo, e principalmente para escrever sobre mim, que é algo que eu sinto que 'naturalmente' não tenho feito.
Ainda estou à procura da melhor forma de o concretizar. Tenho a impressão de que vou dedicar os próximos 100 a isso.
Beijos e abraços a todos!
(Seleccionem os que quiserem receber; podem acumular! :D)
Espero continuar a merecer a vossa estima e presença (de espírito)!
(e ainda estou à espera do primeiro comentário de pessoas que sabem que o blog existe! Sim, vocês sabem quem são, seus/uas malandros/as! ;)
Estes 100 demoraram a chegar; foram pensados, alguns repensados. Não deixaram de conter muita parvoíce à mistura, aliás, como previamente anunciado :D. Não quero fazer do blog uma antologia, nem tão pouco os primeiros 100. É o dia-a-dia, com racionalidades e impulsos à mistura. Se houve porém uma coisa que quis sempre fazer foi colocar algo de mim, embora por vezes muito indirectamente.
Sinto que ainda agora comecei a estar à vontade para escrever num 'papel' aberto ao mundo, e principalmente para escrever sobre mim, que é algo que eu sinto que 'naturalmente' não tenho feito.
Ainda estou à procura da melhor forma de o concretizar. Tenho a impressão de que vou dedicar os próximos 100 a isso.
Beijos e abraços a todos!
(Seleccionem os que quiserem receber; podem acumular! :D)
4 de julho de 2009
How long is red tape ?
Tenho aqui guardada num ficheiro uma anedota sobre as burocracias da União Europeia que diz assim:
Pythagoras's Theorem has - 24 words.
The Lord's Prayer - 66 words.
The Archimedes Principle - 67 words.
The Ten Commandments - 179 words.
The Gettysburg Address - 286 words.
The new European Union rules on the sale of cabbages - 26,253 words.
Foi portanto com muita alegria que no Expresso da semana passada
(e agora uma pequena interrupção frásica para dizer que sim, só agora consegui ler todo o catálogo de Verão da Fnac, da Vodafone, da Telecor, da Media Markt, do El Corte Inglés; a revista Única; os Cadernos Emprego, Guia do Estudante, Economia, Golfe, Espaços e Casas; os Dossiês Especiais Financiamento Automóvel, Animação Territorial, e Especial Verão, até que cheguei à última página do caderno principal, aquilo a que as pessoas normalmente chamam "o Expresso")
Onde é que eu ia ? ah! portanto, na última página do Expresso da semana passada li o seguinte:
"Tamanho dos pêros deixa de contar - Normas de calibragem europeias para 36 produtos hortofrutícolas são revogadas a partir do dia 1 de Julho"
Ou seja, coisas tão idiotas como "diâmetro de melancias, a cor do tomate, a forma das maçãs ou a rectidão dos pepinos" (esta última não fui eu que inventei, está mesmo no texto, seus malandros)
A partir de agora passam apenas a ter de cumprir o seguinte "Não podem estar podres, têm que estar limpos, saudáveis e seguros para o consumidor"
E elegemos nós pessoas para chegar a estas brilhantes conclusões.
Pythagoras's Theorem has - 24 words.
The Lord's Prayer - 66 words.
The Archimedes Principle - 67 words.
The Ten Commandments - 179 words.
The Gettysburg Address - 286 words.
The new European Union rules on the sale of cabbages - 26,253 words.
Foi portanto com muita alegria que no Expresso da semana passada
(e agora uma pequena interrupção frásica para dizer que sim, só agora consegui ler todo o catálogo de Verão da Fnac, da Vodafone, da Telecor, da Media Markt, do El Corte Inglés; a revista Única; os Cadernos Emprego, Guia do Estudante, Economia, Golfe, Espaços e Casas; os Dossiês Especiais Financiamento Automóvel, Animação Territorial, e Especial Verão, até que cheguei à última página do caderno principal, aquilo a que as pessoas normalmente chamam "o Expresso")
Onde é que eu ia ? ah! portanto, na última página do Expresso da semana passada li o seguinte:
"Tamanho dos pêros deixa de contar - Normas de calibragem europeias para 36 produtos hortofrutícolas são revogadas a partir do dia 1 de Julho"
Ou seja, coisas tão idiotas como "diâmetro de melancias, a cor do tomate, a forma das maçãs ou a rectidão dos pepinos" (esta última não fui eu que inventei, está mesmo no texto, seus malandros)
A partir de agora passam apenas a ter de cumprir o seguinte "Não podem estar podres, têm que estar limpos, saudáveis e seguros para o consumidor"
E elegemos nós pessoas para chegar a estas brilhantes conclusões.
3 de julho de 2009
Portugal é um país lento
O Marco Horácio apresenta com a Diana Chaves um programa que, quem sabe o que é o Youtube, já viu há muito tempo na versão japonesa. Não é por o programa não ser uma novidade absoluta que não presta, mas pelo simples facto de não ter ritmo; os apresentadores são lentos na condução do programa, andam a engonhar com conversa de chacha e sem graça. Parece-me que a produção não tem dinheiro para moldes de esferovite suficientes para dar mais velocidade ao programa naquilo que realmente interessa.
Estas versões do Youtube são obviamente editadas para condensar a acção, mas nota-se que, aqui, quem faz realmente o espectáculo são os concorrentes:
Mas este problema português tem raizes. Lembram-se do famoso 1-2-3 ? Com aquela conversa da treta no final do programa "Manda embora o objecto, traz o objecto, o que diz o objecto, leio, não leio, qual é a pista, o que é que decidem, vejam lá, têm a certeza, blah blah" Se na altura funcionava, muito se devia também ao apresentador. Mas depois parece que o ritmo se manteve inalterado na consciência colectiva televisiva enquanto o resto do mundo mudava.
Os programas portugueses não têm ritmo. Foi por isso que o Herman SIC falhou. Se durante uns anos a coisa ainda funcionou, foi graças à tolerância do público, muitos ainda sem tv por cabo, sem acesso ao que se faz lá fora, e também à figura do Herman, que se foi desvanecendo, por entre faltas de inspiração que afectaram o ritmo do programa (que até então ainda o ia safando da duração excessiva) e escândalos de natureza sexual.
Foi também por falta de ritmo que aquele talk-show do Malato não continuou. O apresentador não é dos melhores, mas o essencial foi a duração do programa - enorme, um cenário também ele enorme, tudo no mesmo sentido: falta de ritmo, muito silêncio para preencher e pouco conteúdo. Confrangedor.
Na NBC, o falecido Johnny Carson reduziu a duração do Tonight Show, primeiro de 105 para 90 minutos em 1967 e depois de 90 para 60 minutos em 1980! O cenário do Tonight Show sempre foi pequeno, com proximidade do público, com muito ritmo e muita inteligência.
Porque será que ninguém se lembra de fazer o mesmo ? O cenário, duração e ritmo, pelo menos esses, estarão ao alcance...
O Herman podia ainda hoje estar no ar se o programa fosse para o ar várias vezes na semana, num formato mais conciso. O mesmo com o Show do Malato.
Os telejornais são outra chaga. Em vez de um telejornal conciso, de meia hora, temos de aturar 1h30 de "coisas". Ninguém devia ter tempo para gastar 1h30 a ver e ouvir um telejornal. Os nossos telejornais estão desfasados do ritmo da realidade actual. E ainda por cima é 1h30 de generalidades. É muito raro entrar-se pelos pormenores dos assuntos para se ficar a perceber de facto algo de controverso. Esmiuçar é perigoso porque o telespectador está cansado e pode decidir mudar de canal, além do que é preciso trabalho para esmiuçar e acarreta mais responsabilidades. É como os horóscopos da Maya: dizem-se umas coisas genéricas e assim ninguém fica desiludido.
Em suma, quer nos programas de entertenimento, quer nos telejornais, Portugal tem a técnica do comprimido: faça-se uma coisa enorme, com tudo lá dentro para a malta engolir.
Estas versões do Youtube são obviamente editadas para condensar a acção, mas nota-se que, aqui, quem faz realmente o espectáculo são os concorrentes:
Mas este problema português tem raizes. Lembram-se do famoso 1-2-3 ? Com aquela conversa da treta no final do programa "Manda embora o objecto, traz o objecto, o que diz o objecto, leio, não leio, qual é a pista, o que é que decidem, vejam lá, têm a certeza, blah blah" Se na altura funcionava, muito se devia também ao apresentador. Mas depois parece que o ritmo se manteve inalterado na consciência colectiva televisiva enquanto o resto do mundo mudava.
Os programas portugueses não têm ritmo. Foi por isso que o Herman SIC falhou. Se durante uns anos a coisa ainda funcionou, foi graças à tolerância do público, muitos ainda sem tv por cabo, sem acesso ao que se faz lá fora, e também à figura do Herman, que se foi desvanecendo, por entre faltas de inspiração que afectaram o ritmo do programa (que até então ainda o ia safando da duração excessiva) e escândalos de natureza sexual.
Foi também por falta de ritmo que aquele talk-show do Malato não continuou. O apresentador não é dos melhores, mas o essencial foi a duração do programa - enorme, um cenário também ele enorme, tudo no mesmo sentido: falta de ritmo, muito silêncio para preencher e pouco conteúdo. Confrangedor.
Na NBC, o falecido Johnny Carson reduziu a duração do Tonight Show, primeiro de 105 para 90 minutos em 1967 e depois de 90 para 60 minutos em 1980! O cenário do Tonight Show sempre foi pequeno, com proximidade do público, com muito ritmo e muita inteligência.
Porque será que ninguém se lembra de fazer o mesmo ? O cenário, duração e ritmo, pelo menos esses, estarão ao alcance...
O Herman podia ainda hoje estar no ar se o programa fosse para o ar várias vezes na semana, num formato mais conciso. O mesmo com o Show do Malato.
Os telejornais são outra chaga. Em vez de um telejornal conciso, de meia hora, temos de aturar 1h30 de "coisas". Ninguém devia ter tempo para gastar 1h30 a ver e ouvir um telejornal. Os nossos telejornais estão desfasados do ritmo da realidade actual. E ainda por cima é 1h30 de generalidades. É muito raro entrar-se pelos pormenores dos assuntos para se ficar a perceber de facto algo de controverso. Esmiuçar é perigoso porque o telespectador está cansado e pode decidir mudar de canal, além do que é preciso trabalho para esmiuçar e acarreta mais responsabilidades. É como os horóscopos da Maya: dizem-se umas coisas genéricas e assim ninguém fica desiludido.
Em suma, quer nos programas de entertenimento, quer nos telejornais, Portugal tem a técnica do comprimido: faça-se uma coisa enorme, com tudo lá dentro para a malta engolir.
10 de junho de 2009
Dead Already
Será possível ?
O filme é surpreendente, a música é de um etéreo down to earth refrescante, sublime, pujante. Acaba por ser deliciosamente irónico e paradoxal a música ter este nome.
O filme é surpreendente, a música é de um etéreo down to earth refrescante, sublime, pujante. Acaba por ser deliciosamente irónico e paradoxal a música ter este nome.
16 de maio de 2009
Senti

Estava eu em mais uma incontável noite, em que o corpo se recusa a ir para a cama, quando me apeteceu rever este filme.
E foi aí que senti. Perceber é uma coisa. Sentir é perceber e algo mais. Algo que faz com que digamos para nós mesmos "É isto!"; dá-se um click em relação à realidade em que nos movemos, que nos faz abrir a porta para aquilo que andávamos a protelar, a esconder, a evitar sentir. Sentir é saber intimamente algo.
Embora um excerto do exacto momento do filme a que me refiro fosse o ideal, deixo-vos aqui a transcrição do mesmo:
"Instead, Harold did that which had terrified him before. That which had eluded him Monday through Friday for so many years.That which the unrelenting lyrics of numerous punk rock songs told him to do: Harold Crick lived his life.
But despite resuscitating his life, reviving his hope and instilling a few wicked calluses (de tocar a sua nova guitarra), Harold's journey ("dia") was still incomplete."
E foi aqui que eu senti: sei finalmente porque é que não consigo adormecer. O meu dia está incompleto.
E mesmo que tecnicamente a minha recusa em ir para a cama se arraste invariavelmente para o dia seguinte, eu ainda estou na incompletude do dia anterior.
E agora se me dão licença vou acabar de ver o filme, que estou a ficar com algum sono :D
13 de maio de 2009
As cuecas do Alan Greenspan
Alan Greenspan, antigo presidente do FED (Reserva Federal norte-americana), disse ontem que já se via 'a luz ao fundo do túnel'.

Ninguém lhe ligou nenhuma. Wall Street fechou a descer pelo segundo dia consecutivo.
Não é de estranhar. Afinal foi Alan Greenspan que previu a crise em que estamos, recorrendo à análise da queda na procura de roupa interior masculina.
Tendo em conta que esta crise já cheira mal, Alan Greenspan já deve estar a achar que bem escusava ter o cognome "O Profeta da Cueca".
Mas enfim, por outro lado, em tempos de crise, a venda de batom e de chocolates sobe.
É o que eu digo, a sorte, ao contrário de Greenspan, é sensual. Mesmo quando é má.

Ninguém lhe ligou nenhuma. Wall Street fechou a descer pelo segundo dia consecutivo.
Não é de estranhar. Afinal foi Alan Greenspan que previu a crise em que estamos, recorrendo à análise da queda na procura de roupa interior masculina.
Tendo em conta que esta crise já cheira mal, Alan Greenspan já deve estar a achar que bem escusava ter o cognome "O Profeta da Cueca".
Mas enfim, por outro lado, em tempos de crise, a venda de batom e de chocolates sobe.
É o que eu digo, a sorte, ao contrário de Greenspan, é sensual. Mesmo quando é má.
11 de maio de 2009
A day to pretend
Oh my, I somehow forgot this was a bilingual blog. It's time to get back to it then.
I like tennis. I'm not crazy about it, and I certainly don't know what tournament is going on right now. But I do know the rules of the game (I'm a dreadful player, by the way), and I certainly do like to watch once in a while. If I can be there, so much the better. But, alas, I'm not rich, and therefore resort to just attending the final day of our own little ATP tournament called Estoril Open.
If there is an underrated tournament in Portugal, it has to be this one. But it's understandable, being an upper middle class and upwards type of sport in a small country with a big football tradition means that only a few lean towards tennis.
But that ends up having positive effects. There are no dangerous tennis matches, with the police going over the attendant's belongings looking for dangerous stuff. There are no hoolingans, people are civilized. Only in such a circumstance do I have the chance of riding in the very same bus next to Lili Caneças, a socialite famous for being famous, or literally walking side by side with famous politicians, bank owners and big companies' CEO's and such.
Although it's called Estoril Open, it is actually held in a beautiful place surrounded by trees halfway between Lisbon and Oeiras called "Complexo Desportivo do Jamor" or simply "Estádio Nacional". The tournament is almost always a success, and has been going on for twenty years. The final day, always on a Sunday, meets a full court with a cheering, respectful crowd and , generally, good weather.
However, there are also downsides: the organiser, João Lagos, has been fighting a constant battle over the past few years in order to establish the tournament in a definitive place, with proper infrastructure, but to no avail up to now.
The main tennis court is temporary by nature, being assembled and disassembled every year, The restaurant is done in the same fashion: a cramped tent. The Vip Lounge ? Another tent. The organiser still holds out hope, but this country takes a long time to make things official, even though they are as official as it can be.
However, at the end of the day, Estoril Open will never have a mass appeal as long as the VIP tent is three or four times the size of the restaurant. It's a small little country, with all the meanings the expression encompasses.
I like tennis. I'm not crazy about it, and I certainly don't know what tournament is going on right now. But I do know the rules of the game (I'm a dreadful player, by the way), and I certainly do like to watch once in a while. If I can be there, so much the better. But, alas, I'm not rich, and therefore resort to just attending the final day of our own little ATP tournament called Estoril Open.
If there is an underrated tournament in Portugal, it has to be this one. But it's understandable, being an upper middle class and upwards type of sport in a small country with a big football tradition means that only a few lean towards tennis.
But that ends up having positive effects. There are no dangerous tennis matches, with the police going over the attendant's belongings looking for dangerous stuff. There are no hoolingans, people are civilized. Only in such a circumstance do I have the chance of riding in the very same bus next to Lili Caneças, a socialite famous for being famous, or literally walking side by side with famous politicians, bank owners and big companies' CEO's and such.
Although it's called Estoril Open, it is actually held in a beautiful place surrounded by trees halfway between Lisbon and Oeiras called "Complexo Desportivo do Jamor" or simply "Estádio Nacional". The tournament is almost always a success, and has been going on for twenty years. The final day, always on a Sunday, meets a full court with a cheering, respectful crowd and , generally, good weather.
However, there are also downsides: the organiser, João Lagos, has been fighting a constant battle over the past few years in order to establish the tournament in a definitive place, with proper infrastructure, but to no avail up to now.
The main tennis court is temporary by nature, being assembled and disassembled every year, The restaurant is done in the same fashion: a cramped tent. The Vip Lounge ? Another tent. The organiser still holds out hope, but this country takes a long time to make things official, even though they are as official as it can be.
However, at the end of the day, Estoril Open will never have a mass appeal as long as the VIP tent is three or four times the size of the restaurant. It's a small little country, with all the meanings the expression encompasses.
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