O Dr. Jorge Sampaio tem duas grandes virtudes: sabe falar razoavelmente bem inglês e sabe ser tão politicamente correcto, mas tão tão tão tão tão politicamente correcto que acaba por ser tão, mas tão tão tão tão abstracto, que acaba por não dizer nada.
Aqui vai um pequeno exemplo desta última qualidade, retirado de uma mini-entrevista de três perguntas à revista Visão da semana passada, a propósito do descontentamento dos militares:
Pergunta: "Está preocupado com os sinais de descontentamento ?"
Resposta (ed: bom eu hesito em chamar a isto de resposta... Aníbal): "Deve estar-se sempre atento aos sinais provenientes da «sociedade civil». Semelhante atitude aplica-se, com mais razão ainda, aos corpos do Estado. No caso das FA, não tenho dúvidas de que há um redimensionamento a fazer e reformas a efectuar. E, nesta matéria, deixe-me frisar dois pontos. O primeiro diz respeito aos conceitos estratégicos de defesa nacional, há muito discutidos e aprovados, mas que parecem ser tantas vezes ignorados, do que resulta amiúde um falso debate sobre questões que acabam por não ter objecto. Com isto, não estou a desvalorizar a necessária revisão a que tais conceitos estão sujeitos, à luz da evolução internacional. O segundo prende-se com a necessidade de compatibilizar os objectivos com os meios disponíveis, o que exige uma visão realista das diferentes opções políticas e um rigoroso exercício de avaliação da adequação das necessidades às possibilidades. É neste quadro que se inscreve o debate sobre a dimensão das FA, a questão dos equipamentos, o problema das carreiras, etc."
A minha tradução para português:
Devemos estar particularmente atentos ao descontentamento das FA, devido à sua importância, e porque há reformas a fazer. E o problema é que, às vezes, está-se a discutir esta questão sem ter presente o que entendemos por defesa nacional, e assim não vamos a lado nenhum. Isto sem prejuízo de haver um reajustamento do que entendemos por defesa nacional face à natural evolução das coisas. Por fim, há que atribuir às FA uma missão que se coadune com a dimensão e possibilidades que elas têm e não mais do que isso. Caso contrário, vêm todos os problemas ao de cima: falta de equipamento, problemas com as carreiras, etc.
Comparação dos dois textos: o do Dr. Jorge Sampaio ocupa 16 linhas, o meu 10. É uma diferença de 60%. Já viram os custos de falar especialmente bem vs. falar moderadamente bem ? E dizer a mesma coisa. Ou seja, muito pouco.
Dou portanto os meus parabéns às Nações Unidas por terem nomeado o Dr. Jorge Sampaio para o cargo de Enviado Especial para a Luta contra a Tuberculose. Afinal de contas, que melhor para combater a tuberculose do que um político nato? A tuberculose ouve o discurso de Sampaio e pira-se logo dali para fora. É que não consta que as doenças parem para pensar.
É por haver políticos como este que existem os Gato Fedorento (mas não só, mas não só. felizmente).
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13 de novembro de 2008
30 de outubro de 2008
Crise, crise, crise e...
...mais do mesmo. É inevitável. É um ciclo que se repete, é um reajustamento de expectativas, de possiblidades, de recalibrar a inteligência com a realidade, depois de passada a nuvem da euforia, da irracionalidade, da negligência e da ambição sem fronteiras (leia-se: passar por cima dos outros se for preciso).
Mas, no meio de tanta crise, há ousadias que saem caras, em que o reajustamento pode levar a consequências bem mais sérias ainda, como por exemplo um golpe de Estado.
Penso que a regra número um é tratar todos com respeito, e do ponto de vista estratégico na luta contra o défice e outras coisas que nós nem sabemos, parece que não é lá muito boa ideia retirar aos que lutam por nós a sua dignidade. (Desculpem a ironia, o caso é sério)
E quando digo "lutam", é na verdadeira acepção da palavra. Os militares têm poder de fogo. E quando usam o poder da palavra para lembrar, ainda que de forma mais ou menos velada, que têm poder de fogo, é porque algo está mesmo MUITO MAL.
O General Loureiro dos Santos, antigo chefe do Estado-maior do Exército disse na TSF que havia já uma situação que podia levar a alguns "disparates" com implicações nacionais e internacionais, confirmada pelo presidente da Associação Nacional de Sargentos, Lima Coelho, e pelo presidente da Associação dos Oficiais das Forças Armadas, Alpedrinha Pires.
Eu ainda não tenho idade que me permita dizer que já vi de tudo no que respeita a governos, mas este parece-me estar a cometer aqui um erro básico e uma injustiça, que pode custar caro à estabilidade da democracia... eles civilizadamente, e bem, alertaram para a situação.
Update: parece que o aviso original já é do último sábado.
Mas, no meio de tanta crise, há ousadias que saem caras, em que o reajustamento pode levar a consequências bem mais sérias ainda, como por exemplo um golpe de Estado.
Penso que a regra número um é tratar todos com respeito, e do ponto de vista estratégico na luta contra o défice e outras coisas que nós nem sabemos, parece que não é lá muito boa ideia retirar aos que lutam por nós a sua dignidade. (Desculpem a ironia, o caso é sério)
E quando digo "lutam", é na verdadeira acepção da palavra. Os militares têm poder de fogo. E quando usam o poder da palavra para lembrar, ainda que de forma mais ou menos velada, que têm poder de fogo, é porque algo está mesmo MUITO MAL.
O General Loureiro dos Santos, antigo chefe do Estado-maior do Exército disse na TSF que havia já uma situação que podia levar a alguns "disparates" com implicações nacionais e internacionais, confirmada pelo presidente da Associação Nacional de Sargentos, Lima Coelho, e pelo presidente da Associação dos Oficiais das Forças Armadas, Alpedrinha Pires.
Eu ainda não tenho idade que me permita dizer que já vi de tudo no que respeita a governos, mas este parece-me estar a cometer aqui um erro básico e uma injustiça, que pode custar caro à estabilidade da democracia... eles civilizadamente, e bem, alertaram para a situação.
Update: parece que o aviso original já é do último sábado.
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